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30/Out/2021 - 21:26:12
E se...?
RedaçãoVAGNER FERNANDO PASCHOAL PAULO
Muitas vezes nos deparamos com esse questionamento e pensamos sobre como seriam nossas vidas se em determinadas bifurcações e encruzilhadas de nossas jornadas tivéssemos tomado um rumo diferente. A grande dúvida oriunda dessa questão consiste em nunca termos a oportunidade de obter uma resposta satisfatória, pois não saberemos se a decisão tomada foi mesmo a melhor possível e, sendo assim, só nos resta aprender a conviver com as consequências de nossas escolhas. Mesmo que a questão título deste artigo seja inerente a todos nós individualmente, no decorrer dos anos ela surge em âmbito coletivo com dúvidas acerca de acontecimentos históricos. Como a arte é um reflexo da sociedade em que está inserida, esporadicamente alguns cineastas, valendo-se do poder das imagens e dos recursos narrativos proporcionados pela sétima arte para concretizar suas visões, nos apresentam histórias cujo mote tem por objetivo nos apresentar uma alternativa à celebres fatos históricos.
Diferentemente dos filmes, baseados em fatos que se apoiam em acontecimentos notórios e por vezes tomam liberdades artísticas para uma melhor apresentação do resultado final, os diretores Quentin Tarantino e Dany Boyle apresentaram 3 filmes cujas premissas partem de um "e se?" para contar suas histórias e nos conduzem por tramas capazes de apresentar uma espécie de "universo paralelo", em que é capaz vislumbrar o final antecipado da II Guerra Mundial, a atriz Sharon Tate não sendo assassinada pelos membros da Família Manson e um mundo sem a existência dos Beatles.
Lançado em 2009, escrito e dirigido por Quentin Tarantino, o filme "Bastardos Inglórios" é ambientado na França ocupada por nazistas em 1944, durante a II Guerra Mundial. Nesse cenário entram em cena os "Bastardos" do título, um grupo de soldados de elite composto por judeus americanos que se utiliza de técnicas de guerrilha para impor terror psicológico aos soldados alemães. Com a oportunidade de acabar com todo o alto comando do Terceiro Reich durante a estreia de um filme sobre as proezas de um jovem soldado alemão, os Bastardos irão contar com a ajuda inesperada de um Coronel traidor da SS para exterminar Adolf Hitler e seus auxiliares mais próximos.
Já em 2019, Tarantino lançou o filme "Era uma Vez em... Hollywood" em que acompanhamos as rotinas do ator decadente Rick Dalton (Leonardo Di Caprio), seu dublê e melhor amigo Cliff Booth (Brad Pitt) e da estrela em ascensão Sharon Tate (Margot Robie). Durante três dias do ano de 1969 esses personagens tão ligados ao cinema mostram ao espectador toda a aura hollywoodiana da época. Se em 9 de agosto daquele ano o destino de Tate e de todos que estavam em sua casa foi trágico, quando foram assassinados por três membros da seita liderada por Charles Manson, o filme de Tarantino reserva à atriz um futuro tranquilo quando os assassinos entram na casa ao lado e encontram Cliff, junto de sua pitbull Brandy, e Rick dispostos a impedir que os seguidores de Manson obtenham êxito em sua maligna empreitada. Como a vingança é um tema recorrente na filmografia de Tarantino e a violência uma de suas características mais marcantes, é através deste elemento que esses dois filmes geram suas catarses e nos fazem, mesmo que naqueles minutos, sentir a satisfação de saber que naquele universo, as vítimas do nazismo e de Manson estão a salvo.
Também de 2019, com roteiro de Richard Curtis e direção de Danny Boyle, o filme "Yesterday" conta a história de Jack Malick (Himesh Patel), um cantor e compositor que auxiliado pela amiga e empresária Ellie (Lilly James) tenta alcançar o estrelato. Depois que o mundo todo sofre um apagão misterioso por 12 segundos, Jack é atropelado e ao recuperar a consciência percebe que somente ele tem lembrança de muitas coisas de nosso mundo, como Coca-Cola, cigarros e, principalmente, a banda Beatles. Utilizando sua memória, Jack passa a "compor" as canções do quarteto de Liverpool e alcança a fama e sucesso que tanto almejava. Engraçado nos momentos que o protagonista vai descobrindo aos poucos que somente ele sabe sobre marcas famosas que fazem parte de nosso cotidiano e tocante nos momentos musicais mais intimistas, Yesterday também levanta questionamentos morais quando Jack percebe que seu sucesso não é fruto de seu talento, e se ele é merecedor de tudo que conseguiu utilizando as canções escritas por John Lennon e Paul McCartney. Além de ressaltar a importância da banda, um dos méritos do filme de Boyle é nos fazer refletir sobre a ausência dela.
Enfim, esses são apenas alguns exemplos da arte como transformadora da história, cabendo a cada um de nós aprender a conviver com nossas escolhas e também com escolhas alheias, que nos afetam diretamente. Como o questionamento é importante, mesmo podendo aprender com os erros cometidos no passado e mesmo acreditando ter tomado a melhor decisão sempre iremos nos perguntar "e se?".
Concordando ou discordando de minhas palavras, gostando ou não dos filmes aqui mencionados apenas pense: e se eu não tivesse lido este texto?