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06/Nov/2021 - 20:58:40
Da rua Júlio de Mesquita à quebra de contrato com Pedrão
RedaçãoSAULO DE OLIVEIRA FOLHARINI, LEONARDO CAPUANO FOLHARINI, FERNANDO CAPUANO FOLHARINI
Tistão, Tistão o senhor soube "levar a vida na
gaita". Algumas outras expressões que gostava de usar: "Cheiro de
brilhantina", "?! Uai!, ", "Segura na Capituva",
"O fogo apaga e nóis não pita". Com essas e outras expressões e seus
jeito cativante angariou simpatizantes no longo período como comerciante de São
José.
Já em casa são muitos os momentos bons registrados na memória. O avô que aparecia com carrinho de rolimã de roda de madeira para conseguir andar no paralelepípedo, um perfeito 4x4. O avô que ajudou o neto no desfralde, levando-o para a Ilha de São Pedro. O avô que saiu correndo da fazenda do Zezé da Lagoa para levar o neto com a cabeça cortada para o hospital. O avô que avisava que estava chegando do trabalho balançando o molho de chaves, assobiando e falando "Oh amigão!". O avô que acordava cedo para comprar o pão no Casca e fazer café. O avô que comia fruta antes do almoço e falava para os netos que fazia bem para saúde sempre comer uma fruta. O avô que adorava plantas e animais, com cachorros tinha uma afinidade impressionante. O avô que buscava os netos na escola. O avô que gostava de assistir filmes de bang-bang. O avô que saia para passear de domingo de manhã e visitava Vado Breda, tia Nenê e tia Teresa. O avô que, bem lembrou o Fernandinho, ajudava a completar o álbum da Copa do Mundo mais rápido. Aliás ajudava muitos garotos porque a banca virava ponto de encontro para troca de figurinhas em época de Copa.
Na banca fez grandes amizades, até fundou um Centro Cultural. Nas inúmeras reuniões do Centro chamava atenção sua desenvoltura em falar mexendo as mãos. Quando alguém propunha do senhor ficar com as mãos paradas, parece que o discurso sumia da sua cabeça. A desenvoltura não era a mesma.
Boa parte dos amigos do Centro o senhor encontra agora para seguir sua caminhada. Organize o Centro, mexa as mãos e continue a emanar as boas energias que sempre enviou a todos que conviveram com o senhor e guardam boas recordações.
Agora! Merece um puxão de orelha. Quebrou o acordo com Pedrão (São Pedro). Não era para chegar aos 100 anos? Não adianta pedir interseção de Maria (Nossa Senhora), tem que conversar com Pedrão na porta de entrada. Mas vá tranquilo, dizem que ele é bravo, mas como bom italiano que é o senhor sabe mexer as mãos e tem uma boa conversa, levará o Pedrão no papo. Apenas vai dar trabalho para ele encontrar a folha onde estava seu nome, já que o senhor dizia que ele pulou essa folha e te esqueceu aqui.
Existem tantas outras histórias, mas vou tentar lembrar de algumas aqui que escutei algumas vezes.
Quando serviu o Exército, certo dia o sargento Dejanir atrasou. Sargento este que o senhor dizia ser muito rígido. Bom, neste dia juntou alguns recrutas e foram até a casa do sargento (onde hoje é a farmácia na esquina do Fonseca) porque ele havia se atrasado para a instrução. Bateram na porta, a esposa do sargento abriu e vocês disseram: "Viemos avisar que 7h00 são 7h00 e não 7h5!" e saíram correndo pela Treze de Maio até onde hoje é a Casa Euclidiana (na época o Tiro de Guerra). Ficaram de tocaia esperando o sargento Dejanir aparecer, quando ele passou pela Padaria Riopardense, vocês deram no pé. Neste dia não teve instrução. No dia seguinte o sargento Dejanir, como todo valente convicto, ficou só de camiseta e chamou para briga os recrutas que foram até sua casa no dia anterior. Lógico que ninguém se manifestou. Nem mesmo a Rosa Palmeirão, como dizia Zé Carlos Merlo.
Ainda na época do Tiro de Guerra, Baptista e "Bobrinha" faziam a dupla de guarda na madrugada. "Bobrinha" escutava barulhos pela casa com frequência e dizia que era o espírito do Euclides da Cunha. Em uma madruga qualquer, "Bobrinha" decidiu que iria pegar o espírito do Euclides. Quando o barulho começou, saiu correndo pela casa até finalmente descobrir o que causava o barulho, uma janela do banheiro que ficava batendo por causa do vento. Pronto, não era culpa do Euclides.
Quando andou de moto pela primeira vez, pegou emprestado a de José Ferreira e subiu a Saldanha Marinho (Dr. João Gabriel Ribeiro) até a Treze de Maio, virando a esquina em direção a padaria Riopardense, desequilibrou e caiu. Com isso além de ralados, teve que pagar o conserto da moto, vem daí seu horror as duas rodas. Não queria de jeito nenhum que eu tivesse uma. Eu tive e cai, mas esse fato só te conto agora.
Na época que foi alfaiate, ocupou o espaço que depois se tornou o depósito da banca de jornal na Dr. João Gabriel Ribeiro, 180. Era época de dificuldades financeiras em casa. Também era época da construção das usinas Euclides da Cunha e Limoeiro. Construção que deu início a sua amizade com o Deuclecio, chefe na usina. Frequentador assíduo da alfaiataria, sempre perguntava porque o Baptista não trocava aquela luz fraca que tinha por uma melhor. A resposta era sempre a mesma: "Não tenho dinheiro!". Até que certo dia, Orlando Bingoletto chegou na alfaiataria com uma nova lâmpada fluorescente. Depois de uma discussão se iria instalar ou não, Baptista acaba aceitando o presente. Mas ficou a dúvida, quem tinha dado a lâmpada? Esse mistério ainda perdurou alguns dias até Deuclecio confirmar que tinha sido ele quem havia comprado a lâmpada.
? Tistão, na infância pode ter passado dificuldades, mas na vida adulta conseguiu construir uma família onde não faltou nada. Na mesa do almoço sempre me dizia "Come mais um pouquinho". Escutei essa frase todos os dias até minha adolescência. Aí nasceu o Feco e o jogo mudou quando ele cresceu. O que ele passou a dizer para o senhor? "Come mais um pouquinho. Não comeu nada". Era antes do almoço que manteve uma tradição por anos, a velha e boa cachacinha para abrir o apetite.
Escrever esse texto não foi difícil. Guardo boas lembranças por esses 34 anos de convívio. Conversamos sobre tudo o que tínhamos para conversar em vida. Isso conforta quem fica, ainda mais sabendo que sua passagem foi como desejou e mereceu, rápida, sem dor e sofrimento. Obrigado, Zé!
Siga seu caminho e seja mais um guia para nossa jornada aqui na Terra. Terezinha, seus irmãos, pais, cunhados e amigos te esperam de braços abertos. O céu está em festa, festa que se dependesse de sua vontade começaria com samba no velório!
Até qualquer hora vô!