São José do Rio Pardo, ,

06/Nov/2021 - 21:36:01

Semana difícil!

Maria Olívia Garcia




O preço que se paga por envelhecer (e não morrer antes) é alto: vamos passando por acontecimentos difíceis nunca antes imaginados e vamos, pouco a pouco, perdendo parentes, amigos ou pessoas que, de alguma forma, participaram de momentos de nossa vida.

Só nesta semana três pessoas conhecidas e que em alguma época  foram amigas partiram para sempre. Quem nesta cidade não conheceu Baptista Folharini? Bons tempos aqueles, em que ele abria a banca de revistas logo cedo e os amigos e conhecidos ali se reuniam com as notícias do dia!

O professor Márcio Lauria chegou a mandar confeccionar uma placa com o nome Centro Cultural Baptista Folharini e, como o professor mesmo registrou em uma crônica, mandou escrever a placa, de propósito, com "um tipo de letra manuscrita que permitia, com certa imaginação, ler também  Antro Cultural", pois, conforme Lauria, servia "para deixar bem claro que ali cabia perfeitamente um comentário meio ferino, uma observação um tanto maliciosa, um caso relatado com um grãozinho de sal, até com desrespeito à verdade sem graça e sem imaginação. Só era proibido alguém precisar de mais de noventa segundos para dar seu recado".

Era divertido. Os homens sempre eram maioria, mas havia algumas professoras que se arriscavam a entrar na conversa, eu não perdia um dia! Difícil era ser a primeira a sair, pois certamente comentários ferinos viriam na ausência de quem se retirasse!  Quem pensa que as mulheres são as mais fofoqueiras, é porque nunca presenciou uma reunião predominantemente masculina!  Além do professor Márcio, outra presença constante era do Sr. Gildo Bertocco, sempre contando as peripécias do seu condicionamento físico, dos quilômetros que havia feito nas suas caminhadas.

Mesmo que de início os assuntos fossem mais amenos, logo a política se tornava o assunto principal e a discussão se acalorava. Além do professor Márcio e de Gildo Bertocco, havia muitos outros frequentadores que foram paulatinamente desaparecendo, partindo para a "grande e final viagem", eufemismo usado por Lauria.

Também concordo com a descrição que o professor faz de Baptista: era um sujeito de "inteligência vivaz, dotada de senso de humor e grande capacidade de representação cênica". De largos gestos, ao final dos comentários sempre juntava as mãos e ria. ? impossível esquecer-me do inevitável comentário que fazia ao final de algum fato interessante: "Já pensou, Maria Olívia?" - sempre com aquele sorriso franco e aberto.  Meu caçula, Gabriel, quando criança e até a adolescência, antes de ir estudar em São Paulo, ia sempre até a banca, para conversar com o Baptista.

Quando os Folharini cerraram definitivamente as portas daquele recinto comercial, o fato mereceu até uma crônica do professor Márcio Lauria: "De portas fechadas". Todos nós, assíduos frequentadores do local, sentimos muitíssimo esse fechamento, era praticamente o único "centro cultural" desta cidade que se podia frequentar livremente e a qualquer hora!

Onde estiver, Baptista, sei que deve ter sido muito bem recebido e que já deve ter espalhado sua alegria e bom humor nessa dimensão em que se encontra! Portanto, descanse em paz, até a turma toda chegar aí para tirar o seu sossego! ? família, meus sentimentos sinceros!

Outra pessoa conhecida que se foi - Paulo Alvero - meu conhecido desde a adolescência, pois frequentávamos a mesma turma. Geralmente quieto, mas   sempre alegre e sorridente. Há algumas semanas nos encontramos - ele saindo e eu entrando - na piscina onde fazia exercícios para se recuperar. Poucos dias depois, a notícia de que ele havia sofrido outro AVC, em seguida, a do falecimento. Muito triste! ? Ana e aos filhos, meus sinceros votos de que Deus lhes dê forças para superar essa ausência!

E, por fim, outra pessoa com quem trabalhei na Nestlé, na década de 70: Márcio Boldrin. Na época, ele era guardinha, muito inteligente e prestativo. De uns anos para cá, de vez em quando nos cruzávamos na igreja de São Roque, de cuja comunidade ele participava ativamente. Foi uma morte prematura, aos 63 anos de idade. ? família, meus sentimentos.

Pouco a pouco, nossas imagens de passado vão apresentando grandes lacunas, com a falta das pessoas que já faleceram e, infelizmente, são muitas. Por mais que se leia, por mais que se reflita, a morte continuará sendo sempre um mistério, assim como algumas doenças. Por que este e não aquele? Por que um jovem, ou uma criança, e não quem só faz mal à sociedade ou quem já está cansado de viver? Não que deseje a morte destes, mas é que tudo isso foge à nossa lógica, por isso é tão difícil compreender!

Enfim, novembro é um mês que já começa com Todos os Santos e Finados, tornando-se, desta forma, uma época propícia para se pensar no que há além da matéria e em que leis determinam essa incoerência da morte, que muitas vezes leva quem menos se espera!


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