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06/Nov/2021 - 21:54:29
O racista, o misógino, o homofóbico, o fundamentalista... moram ao lado
RedaçãoPROF. DR. RAFAEL MINUSSI (UNIFESP)
Qualquer semelhança entre o título deste artigo e filmes como "O inimigo mora ao lado" ou "Morando com o inimigo" é pura coincidência, mas nem tanto. Em filmes com essa temática, há sempre uma revelação inesperada. Alguém que não despertava nenhuma suspeita se revela como o assassino, o transgressor, o violentador etc. Outra temática relacionada é a do "inimigo invisível", "o inimigo que não se vê". Sabemos bem o que isso significa nos dias de hoje. Passamos toda a pandemia, que já dura mais de um ano e meio, convivendo com o medo de um inimigo que sabemos que existe, mas não pode ser visto a olho nu. Por isso, o cuidado precisava, e ainda precisa (Máscaras sim! Vacina sim!) ser muito grande, pois não sabemos onde está exatamente o perigo.
Quantos de nós, antes da pandemia, víamos nossas casas como um lugar seguro e passamos a temer um ataque viral dentro de nossas casas. Que alívio é chegar em casa e poder tirar a máscara e respirar bem fundo. Abrir o peito e inspirar longa e lentamente.
Entretanto, nem sempre a casa é um lugar seguro. Esse foi mais um dos aprendizados que adquirimos durante a pandemia. Mulheres e crianças sabem bem o que isso significa. Foram mais de 105 mil denúncias de violência contra mulher em 2020 e também houve um aumento de 50% nas denúncias de violência contra crianças e adolescentes. Mas, além de fatos como esses que citei, ainda há outras situações que mesmo estando dentro de casa, no "aconchego do lar" (Que expressão mais antiquada, não? Ainda mais quando sabemos que muitos brasileiros estão vivendo nas ruas), podemos ser vítimas do racismo, da homofobia, do feminicídio, da intolerância religiosa e eu poderia citar outras várias situações. Nesses casos, o inimigo é visível, tem cor no caso dos racistas, é conservador, fundamentalista, puritano e costuma ser "gado".
Ao colocar todas essas características juntas, não estou querendo dizer que essas pessoas são iguais. Há diferentes causas para o racismo, para a homofobia, para a misoginia, assim como há várias nuances e diferentes antídotos para esses crimes. Contudo, é possível notar também aspectos que os unem como, por exemplo, o preconceito, o desconhecimento, a inferiorização do que é diferente de nós, entre outras coisas. Como diz Djamila Ribeiro no seu livro Pequeno Manual Antirracista: "é preciso ressaltar que mulheres e homens negros não são as únicas vítimas de opressão estrutural: muitos outros grupos sociais oprimidos compartilham experiências de discriminação em alguma medida comparáveis".
Esta coluna, o Observatório 21, já trouxe outros textos que tratam do preconceito e racismo como os textos "Consciência negra: herança de orgulho e dor", "O racismo estrutural "nosso" de cada dia" e "O que é racismo estrutural: exemplos". Todavia, porque o racismo ainda é um dos principais males de nossa sociedade, é preciso continuar atento e forte.
Semana passada, uma famosa loja de roupas, que fica em um shopping de Fortaleza (CE), foi denunciada por cometer racismo contra uma mulher negra que entrou na loja e foi expulsa pelos funcionários, sob a alegação de que ela estava se alimentando e com a máscara abaixada. Contudo, as câmeras de segurança mostraram que, em seguida, um casal branco entra na loja se alimentando e nada acontece. Esse fato expôs um código de alerta da rede de lojas para entrada de pessoas negras ou com "roupas simples". ? algo que deveria chocar a todos, mas o racismo estrutural está tão arraigado no nosso cotidiano que essas situações passam despercebidas e são normalizadas. Por isso, livros, artigos em jornais, documentários, filmes e palestras sobre o racismo, o preconceito e a escravidão são tão importantes.
Nesse sentido, ressalto a grande contribuição do livro da Djamila Ribeiro, que retoma a fala da filósofa estadunidense Angela Davis: "não basta não ser racista, é preciso ser antirracista". No livro Pequeno Manual Antirracista, a autora traz uma série de atitudes antirracistas que qualquer um de nós pode ter, relembrando que o STF equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo recentemente. Entre essas atitudes, destaco as seguintes: (i) buscar informações sobre o racismo; (ii) reconhecer os privilégios da branquitude; (iii) perceber o racismo internalizado em cada um de nós; (iv) apoiar políticas educacionais afirmativas, que combatam o abismo social que há entre brancos e negros na nossa sociedade; (v) ler autores negros e, atualmente, finalmente, muitos autores negros como Silvio Almeida, Sueli Carneiro, Zélia Amador e Conceição Evaristo estão sendo publicados e (vi), a atitude mais importante, combater a violência racial, denunciar o racismo, seja do seu vizinho, dos seus amigos e familiares, do seu chefe, do seu colega ou do seu presidente.