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13/Nov/2021 - 21:34:21
Euclides da Cunha além de Os Sertões
RedaçãoMARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES / NICOLA SOUZA COSTA
"Peru Versus Bolívia", "Castro Alves e Seu Tempo", "Contrastes e Confrontos"
Algumas das obras euclidianas fundamentais foram: "Os Sertões" (1902); "Peru versus Bolívia" (1907); "Contrastes e Confrontos" (1907); "? Margem da História" (1909); "Diário de uma Expedição" (1939); "Caderneta de Campo" (1975). Há também um livro que reúne 400 cartas escritas por ele que contêm opiniões e confissões importantes para conhece-lo como escritor e cidadão.
"Peru versus Bolívia": publicado pela primeira vez em 1907, em artigos do Jornal do Comércio, foi imediatamente traduzido para a língua espanhola. Trata-se de uma discussão de maior importância para os países interessados, Peru e Bolívia, sobre disputas territoriais, e para o Brasil. O livro é um estudo técnico sobre o litígio de fronteiras entre os países Peru e Bolívia. Estuda o problema, considerando-se todos os aspectos que podiam levar à conclusão final: histórico, geográfico, político e jurídico. O professor Francisco Venâncio Filho disse sobre Euclides da Cunha "Revela mais uma vez a sua excepcional capacidade de pensador ao mesmo tempo que um profundo conhecimento dos países da América do Sul. Por tudo isto, teve excepcional repercussão em todo o continente".
Com o tratado de Petrópolis (1902), o Brasil acertou seus problemas fronteiriços com a Bolívia. Coube ao Brasil o território do Acre onde havia rica reserva de borracha natural que era explorada pelos brasileiros. O Acre havia sido proclamado independente em 1902, optando pela sua incorporação ao Brasil. A vizinha Bolívia sentiu-se prejudicada e foi obrigada a negociar com o Brasil, pelo qual o Acre tornou-se território nacional. Euclides da Cunha percorrera o rio Purus até suas cabeceiras em território peruano, mapeando-o, o que serviu de base para a negociação com os vizinhos peruanos. Encarregado pelo barão do Rio Branco, Euclides da Cunha, valendo-se dessa experiência e desse rico material técnico e histórico, mostrou em seu relatório "Peru versus Bolívia" a existência de erros que terminaram por orientar a delimitação territorial entre Peru e Bolívia. Tomou, então, apaixonadamente o partido da Bolívia, o que prevaleceu no tratado. Ele tornou-se o "Cavaleiro Andante da Bolívia contra o Peru", conforme ele mesmo se definia.
São palavras de Euclides da Cunha: "Muitos talvez não compreendam que, numa época de cerrado utilitarismo, alguém se demasie em tanto esforço numa advocacia romântica e cavalheiresca, sem visar um lucro, ou interesse indiretos. Tanto pior para os que não o compreendam. Falham à primeira condição prática, positiva e utilitária da vida, que é aformoseá-la. . . ". Com esse espírito é que Euclides denunciou um erro, defendendo não os direitos da Bolívia, mas defendendo o Direito.
"Castro Alves e seu tempo": Em 1907, os estudantes do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo pensaram em construir hermas de grandes poetas românticos brasileiros. Três antigos alunos da faculdade, no século XIX, foram escolhidos: Álvares de Azevedo, Castro Alves e Fagundes Varela. Para que fosse possível levar adiante o sonho dos estudantes de construir as estátuas, foram idealizadas conferências, com entrada paga, para angariar fundos. Então, em dezembro de 1907, o já reconhecido escritor Euclides da Cunha, aceitando o convite dos alunos do Direito, apresentou uma conferência em São Paulo. O tema da palestra foi Castro Alves e seu tempo. A finalidade era arrecadar fundos para a construção do busto do poeta dos escravos. Segundo Olímpio de Souza Andrade, essa conferência merece destaque pela "excelência da linguagem, a solidez das observações, a clareza das ideias, os excertos de memória, a previsão sobre a cachoeira de Paulo Afonso, o final de iniludível confiança no futuro, expressando de maneira incomum na sua obra, de crítica severa. E o grande saldo positivo, com que Castro Alves sai de tudo isso". Foi a oportunidade que Euclides encontrou para reparar o que para ele tinha causado um má impressão. Um ano antes, por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras, quando assumiu a cadeira nº 7, fundada por Valentim Magalhães, a quem sucedeu, cujo patrono era Castro Alves, Euclides, ao fazer o discurso de posse, não deu à figura de Castro Alves o valor que era de se esperar. Exaltou muito mais a figura de Valentim Magalhães, escritor menos expressivo e hoje praticamente desconhecido.
"Contrastes e Confrontos": Trata-se de uma coletânea de artigos saídos em sua maioria, originalmente, na imprensa. Foram escritos por volta de 1904 e organizados por um editor de Portugal. Entre os vários artigos há alguns de grande interesse como "Plano de uma Cruzada": o tema desse artigo é a seca e a possibilidade de desvio das águas do rio São Francisco para regiões áridas do Nordeste.
Vemos um Euclides preocupado com a ecologia. Ele critica a nossa incapacidade criadora de combater a seca, principalmente por ser um fenômeno previsível: "As secas do extremo norte delatam impressionadoramente, a nossa imprevidência, embora sejam o único fato de toda a nossa vida nacional ao qual se possa aplicar o princípio da previsão".
Euclides apresenta várias sugestões que formariam um plano estratégico desta cruzada contra o deserto. Sugeriu "a açudada largamente disseminada" - em virtude dos vales e aproveitando as corredeiras das montanhas que a própria erosão transformou em grande covas; "a arborização em vasta escala" com vegetais que sejam apropriados para aquele clima rude do sertão; "as estradas de ferro de traçados adrede dispostos ao deslocamento rápido das gentes flageladas"; "os poços artesianos, nos pontos em que a estrutura granítica do solo não apresentar dificuldades insuperáveis". Num outro artigo do livro "Contrastes e Confrontos", "Fazedores de Desertos", vemos também a preocupação de Euclides da Cunha, isso em 1904, com o problema da seca e da ecologia. Critica o desmatamento, a queimada de árvores para obtenção de combustível único das nossas locomotivas. Euclides critica a ação devastadora do homem que não se preocupa com o mundo em que vive. Vemos sua posição neste trecho "Temos sido um agente geológico nefasto, e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia". Outro artigo que merece destaque é "Um Velho Problema" - artigo escrito a 1º de maio de 1904 a propósito do Dia do Trabalho. Disserta ele sobre questões trabalhistas; fala sobre o capital, o trabalho, a produção, o uso da terra e, numa época em que ninguém tinha coragem de abordar o assunto. Ele afirma: "A força única da produção é o trabalho. A terra, as máquinas, o capital não produzem sem o braço do operário". ? portanto um artigo que aborda questões sociais e defende o direito de greve do trabalhador. Muitos outros assuntos ainda foram tratados por Euclides da Cunha em "Contrastes e Confrontos".
No próximo artigo, continuaremos abordando as outras obras deixadas por Euclides da Cunha.