São José do Rio Pardo, ,

13/Nov/2021 - 22:50:22

A indústria do medo

Redação

FÁBIO CALSONE




Bons tempos aqueles em que tínhamos medo do Bicho Papão, da Cuca, do Homem do saco.  Hoje a indústria do medo está muito mais sofisticada, o artifício de alguns desgovernantes para nos manterem "protegidos" é tacar o terror e implantar o medo dentro de nós!

Gostei muito de um texto do psiquiatra e neurocientista Arash Javanbaskht na qual ele relaciona o Medo ao Tribalismo.

De uma forma abreviada, vamos fazer aqui algumas reflexões em face do referido texto.

? provável que o medo seja tão antigo quanto a própria vida. ? como se o medo permanecesse no DNA de todos os organismos vivos neste longo processo de evolução. Assim, as raízes do medo estão gravadas tanto em nossa dimensão biológica quanto psicológica.

O medo tem sido usado há tempos por demagogos para intimidar subordinados ou "inimigos" no intuito de alcançarem seus objetivos. Em mãos erradas, o medo pode ser usado como uma poderosa ferramenta para confundir nossa lógica em consequência disso sermos manipulados.

O medo é ilógico e frequentemente burro, acentua Arash!

Falando em burro, vou fazer uma pequena pausa e contar para vocês a estória do "Burro de Engenho".

Numa época remota em que não dispúnhamos de energia elétrica, o burro passava quase toda sua vida preso a um varão e andando em círculos para movimentar as engrenagens do engenho. Quando o burro ficava velho e cansado, seu dono num gesto de "caridade" soltava-o no pasto para que este se tornasse um animal livre. Tarde demais! Amedrontado com a liberdade e condicionado a fazer sempre a mesma coisa e do mesmo jeito, o burro temia distanciar-se do engenho e continuava andando em círculos no pasto ao lado...

Pensemos nisso!

Adentremos agora a questão do tribalismo.

Temos uma tendência natural de confiar em nossos companheiros de tribo e nas autoridades, especialmente no que diz respeito ao perigo. O autor fala do Tribalismo como sendo uma parte inerente da história humana. Desde os tempos mais longínquos sempre houve competição entre grupos de humanos (tribos); do brutal nacionalismo dos tempos de guerra até a forte lealdade a um time de futebol.

O tribalismo é uma brecha biológica em que muitos políticos apostam há tempos acessando nossos medos e instintos tribais, como exemplos temos o Nazismo, o Ku Klux Klan, as guerras religiosas etc.

As pessoas tornam-se mais emotivas e consequentemente menos lógicas; torcedores de dois times rivais (ou, diferentes ideologias políticas) torcem para serem vencedores, esperando até que Deus tome partido nessa espécie de disputa ou competição.  Essas diferenças entre "nós" e "eles" são reforçadas propositalmente, favorecendo a chamada polarização.

Basicamente a polarização é a divisão de uma sociedade em dois polos a respeito de um tema; porém, o que temos observado é que essa polarização tem funcionado como um fermento que faz crescer ainda mais as divergências políticas e propiciado a criação de extremos ideológicos. Nesta perspectiva, oportunistas se aproveitam de quaisquer diferenças nossas, sejam elas reais ou imaginárias, conservadoras ou liberais, de direita ou de esquerda e implantam o medo em nós.

Como complicador ainda temos as redes sociais. As redes sociais usam códigos para determinar quais conteúdos deverão chegar até nós; esses códigos são chamados de algoritmos; e, têm como função direcionar as informações que devem ou não chegar até nós.

E nós pensando que estamos sendo originais ou que estamos pensando com autonomia.

Ledo engano!

Todo esse processo resulta na criação de "bolhas" onde cada indivíduo acaba recebendo apenas artigos, notícias ou opiniões que reforçam ainda mais suas crenças; assim, uma opinião diferente tem poucas chances de chegar até estes indivíduos e furar esta bolha; o que favorece a criação e propagação das Fake News.

Na polarização há uma disputa entre dois grupos que se fecham em suas convicções e que não estão abertos ao diálogo, não raro abrindo caminho para a violência, pois, os antagonistas se veem como inimigos.

Não podemos perder de vista que o melhor caminho para a democracia ainda é o diálogo, a transparência, a propositura de um plano de governo e não a disseminação do medo, do ódio, do terror e da transgressão de regras.

 

Fábio Eduardo Calsone, Psicólogo no Centro de Referência em Assistência Social, Especialista em Gestão de Pessoas, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.


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