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27/Nov/2021 - 21:52:43
Como Euclides aproveitou e adaptou suas leituras ao que escreveu
RedaçãoCidinha Granado Nicola S. Costa
· ? Dos autores que Euclides leu e mencionou, e que constituem apenas uma parcela dos que conhecera e estudara, podemos afirmar que ele recebeu algumas influências significativas que transpareceram na elaboração de seus artigos sobre Canudos e do livro "Os sertões", e também em suas outras obras.
? Do seu modelo histórico predileto, a Revolução Francesa (1789-1799), que ele estudara profundamente, aproveitou o exemplo da revolta camponesa da Vendeia (1793) que ele comparou à revolta de Canudos e à passagem violenta da monarquia para a república, mas depois percebeu e reconheceu que errara ao aproximar dois episódios acontecidos em épocas e realidades históricas diferentes;
? da teoria poligenista, que afirmava que os grupos humanos não tinham uma origem única (teoria monogenista), como afirmava a Bíblia, mas que surgira em diferentes lugares, como afirmava o darwinismo;
? de pensadores racistas aproveitou a ideia do determinismo racial, baseada em fatores biológicos e da degeneração racial provocada pela miscigenação entre diferentes raças, que geraria seres atrasados, bárbaros e desequilibrados, muitos propensos naturalmente ao crime (conforme teoria do médico italiano Lombroso), enquanto a pureza racial era responsável por seres perfeitos, civilizados e equilibrados, o que a passagem do tempo desmentiu e tornou ultrapassada;
? de pensadores políticos e humanistas, aproveitou a ideia de que a educação é um dos instrumentos mais poderosos para o desenvolvimento humano e a transformação da sociedade, chegando a sugerir que se os governantes brasileiros tivessem mandado professores para o sertão brasileiro, e não soldados e armas, talvez não tivesse acontecido a guerra de Canudos;
? de autores conservadores incorporou a ideia de elitismo social, de cientificismo, de determinismo biológico considerado responsável pelas desigualdades sociais, mas teve autocrítica suficiente para reconhecer os excessos dessas posições;
? do positivismo de Auguste Comte, do catolicismo conservador de Ernest Renan e de alguns socialistas utópicos, assimilou a ideia de que a reforma da sociedade depende da educação, do saber, e não das armas, do poder militar, de revoluções;
? de Hippolyte Taine, aproveitou a ideia de que o historiador deve aplicar os conhecimentos das ciências físicas e biológicas às ciências humanas e à literatura, sem os quais tornam-se desprovidas de sentido;
? do darwinismo social absorveu a concepção de que a vida biológica e a luta pela sobrevivência determinam também a vida social e política, que separaria os homens em superiores, que seriam os mais úteis e mais aptos, daí serem os dominadores, e inferiores, que seriam os inúteis e menos aptos, daí serem os dominados.
? Tudo isso torna-se necessário para entender Euclides da Cunha em sua época e aquilo que escreveu, já que passados 119 anos da publicação do livro "Os sertões" a maioria das ideias que ele utilizou em suas explicações perderam sentido e foram ultrapassadas por outras, embora o livro mantenha importância como obra literária de fundamental importância na literatura nacional.
? provavelmente, Euclides da Cunha reforçou suas ideias patriarcais típicas da sociedade brasileira com as ideias dos franceses Paul Broca e Gustave Le Bon sobre as mulheres, já que as consideravam como seres inferiores física e intelectualmente em relação aos homens, fúteis, ilógicas, sem ideias, desprezíveis, e cujas funções na sociedade seriam gerar filhos, amar e serem passivas diante dos homens;
? o político e escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento, Euclides teve como modelo o livro "Facundo: Civilização ou Barbárie" (1845), que descrevia uma guerra civil naquele país, utilizando os esquemas gerais no livro desse importante autor argentino (civilização X barbárie; litoral X interior; brancos X mestiços; ordem X desordem; progresso X atraso) para explicar o que acontecera em Canudos.
? Passados 119 anos de sua publicação, Euclides da Cunha e o seu livro "Os sertões" continuam sendo estudados e analisados, revelando aspectos inesgotáveis do autor e de sua obra maior, a tal ponto que o eminente professor sergipano José Calasans afirmou: "estudar Os sertões é coisa para séculos".