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27/Nov/2021 - 22:22:04
Anarquia mental
Maria Olívia Garcia
O defeito geral dos nossos dias é a anarquia que reina no fornecimento da instrução, adquirida tumultuariamente, sem ordem, sem método. Bebem-se a longos sorvos, sofregamente, conhecimentos incompletos, aqui e ali, que são mal compreendidos e mal assimilados. As leituras são rápidas e malfeitas, em virtude dessa curiosidade insaciável, que é, por assim dizer, uma das variadíssimas formas da nevrose moderna que afeta geralmente os espíritos.
? verdade que, dessa maneira, adquire-se quantidade enorme de conhecimentos, geralmente bebidos no Facebook, em livros de autoajuda, em pesquisas no Google que muitas vezes levam o leitor a sites não confiáveis, que são, mais ou menos, devorados com prejuízo manifesto para a mentalidade dele. Hoje muitos se consideram capazes de discutir com o médico, com o dentista, com o professor, porque assimilaram algumas informações na internet, mas jamais estudaram o assunto.
Eu mesma conheço jovens que se pretendem "gurus" e têm centenas de seguidores, porém se estes pesquisassem como é a vida pessoal desses mentores, ficariam decepcionados!
De que serve um montão de conhecimentos que se acumulam sem critério, sem regra, sem método, sem nexo, constituindo uma ilustração medíocre, que antes inabilita do que prepara o espírito para qualquer empreendimento sério ?? literário ou científico? Dá-se o que Stuart Mill judiciosamente notou: o indivíduo que os possui não pode, quando quiser, servir-se deles convenientemente, com precisão, clareza e método.
Até hoje, o que tem produzido essa nova maneira de aprendizagem e de saber modernos? Se, como é fácil de notar, encontram-se, a cada passo, grandes "doutores" em conhecimento fragmentado, adquirido nos meios virtuais, é bem mais difícil encontrar, nas novas gerações, espíritos bem preparados e capazes de empreender e executar obras de fôlego e importantes nos domínios das artes, ciências e filosofia. Aliás, estas têm sido áreas desprezadas pelos governantes e seus financiadores, já que são consideradas "sem utilidade prática", ou seja, não dão lucro.
Infelizmente, os estabelecimentos que deviam educar e instruir também estão, na maioria, servidos por profissionais pouco habilitados e sujeitos à funesta intervenção da política ou do custo-benefício.
São raras as redes públicas que possuem um programa educacional coerente, que formam alunos reflexivos, críticos e capazes de enfrentar questões mais complexas. Não há uniformidade de ideias, não há igualdade de pensamento, não há acordo de opiniões: cada um atua como sabe e como pode; o prejudicado é o ensino e a vítima é o aluno.
O sério problema é que tanto a ignorância quanto a anarquia mental, produzidas por uma instrução mal ministrada e pior servida, além da aquisição desordenada de conhecimentos hauridos em leituras desenfreadas, sem método e objetivos, reflete-se gravemente no caráter do indivíduo.
Daí a falta de firmeza de convicções, de seriedade de sentimentos, de honestidade acima de tudo, de solidariedade e de atitudes coerentes. No Brasil é possível se ver um comunista católico, republicano e democrata, por exemplo. ? possível ver um "coronel" do nordeste, milionário e latifundiário, proclamando-se socialista!
Neste país não faltam exemplos de flexibilidade de caráter e de desmoralização geral. Troca-se de religião e de partido político como se troca de camiseta. Euclides da Cunha tinha razão: a religião não só do nordestino, mas do brasileiro, é mestiça, como ele. No entanto, não só a religião: a política, o conceito de honestidade (que geralmente só vale para o outro), o conceito de verdade e o de mentira... Como já disse Francisco Escobar, essa anarquia moral é o reflexo da anarquia mental, oriunda da falta de unidade intelectual, da ausência de um critério justo e elevado, fornecido por uma instrução profissional séria, ancorada em uma ciência acadêmica.
Se a qualquer indivíduo que desejar uma colocação melhor no mercado de trabalho é exigida uma formação específica, por que não reivindicar que os candidatos ao legislativo e ao executivo também tenham formação superior para administrar a coisa pública, já que nós os sustentamos?
No próximo ano haverá eleições... Estaremos sujeitos novamente aos votos de fanáticos de direita ou de esquerda que acabam elegendo, como sempre a pior opção? Lembrem-se: sempre há como piorar, mas ainda é tempo de refletir seriamente sobre a questão!