São José do Rio Pardo, ,

27/Nov/2021 - 22:38:15

As redes sociais e o discurso dos papagaios do ódio

Redação

PROFº. FÁBIO MISSURA




"Quanto mais superficial alguém for, mais provável será que ele ceda ao mal. Uma indicação de tal superficialidade é o uso de clichê." (Hannah Arendt)

 

Não há dúvidas que as redes sociais são um fenômeno de comunicação, interação, exposição e disseminação de informações, elas abriram espaço para as lutas ideológicas e para os enfrentamentos e se transformaram em espaço para a "publicização da produção dos próprios sujeitos envolvidos em um determinado evento". As mídias sociais surgiram como uma oportunidade para aqueles que queriam uma alternativa aos tradicionais meios de comunicação, ou seja, a rede passou a dar voz a quem nunca teve. Mas o aspecto positivo da democratização logo se dissipou e as redes sociais tornaram-se um dos grandes problemas da atualidade, pois nelas não existe o filtro do que se falar ou publicar e também não existe a preocupação de quem publicou com as consequências do que foi "postado". Nesse sentido, as mídias sociais e o "homem online" em um determinado aspecto, o negativo, me fazem lembrar - guardando-se as devidas proporções -  o homem no "status naturae" de Thomas Hobbes em sua obra o Leviatã. Escreve ele: "Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção"(...); é a "guerra de todos contra todos".

Nesse sentido podemos comparar o homem de Hobbes em seu Estado da Natureza ao "homem online" com toda a sua insegurança e imoralidade, em que prevalece a regra do mais forte, da violência do ataque sem pudor e sem restrições de qualquer ordem ética ou moral. ? como se a rede social libertasse o ser das amarras do mundo "off-line", onde ele se submete a  um "pacto social", e o pudor que tinha até então desaparece. Mas o que leva esse indivíduo a essa dualidade comportamental? Talvez o fato de se sentir seguro fisicamente por estar em uma rede social e não em um ambiente onde tenha que se expor sem as máscaras? Exemplos de toda essa brutalidade do mundo online pode ser visto com uma simples passagem de olhos em comentários dos internautas em postagens que de alguma forma gerem alguma "polêmica".

Recentemente pude observar toda essa violência em comentários sobre uma postagem, no Facebook, sobre a nomeação de uma rua em São José do Rio Pardo como nome da Vereadora Marielle Franco com comentários do tipo: "veja pelo lado prático: este nome combina bem com nossas ruas cheias de buraco". Vivemos tempos de desumanização que está relacionada a perda de valores éticos e de sensibilidade.

Essa banalização dos julgamentos do mundo online nos faz lembrar do pensamento de  Hannah Arendt, e do conceito criada pela pensadora que trata da "banalidade do mal" por meio do qual afirma que quando a atitude violenta é repetida com muita frequência a sociedade para de vê-la como irracional. Ainda segundo Arendt existe uma recusa do caráter humano do homem, alicerçado na negativa da reflexão e na tendência em não assumir a iniciativa própria de seus atos.

O questionamento que fica é: Essa desumanização vai atingir o mundo "off-line"?


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