São José do Rio Pardo, ,

04/Dez/2021 - 07:58:20

O legado de Euclides da Cunha para o Brasil

Redação

Cidinha Granado Nicola S. Costa




Euclides da Cunha e o livro "Os sertões" são lidos, pesquisados e analisados por críticos literários e outros intelectuais desde 1902, quando essa obra foi lançada, despertando discussões intermináveis sobre os mais diferentes aspectos do livro e de seu autor, principalmente no país e também no exterior. Opiniões opostas se chocam há cento e vinte anos e ainda estão longe de terminar, tamanha é a riqueza de temas e análises que suscitam em estudiosos das mais diferentes áreas de conhecimentos.

Talvez o que abone as críticas feitas contra Euclides, sem absolvê-lo delas, seja o fato de que ele era polígrafo e não um especialista nos diferentes assuntos que abordou, daí talvez a precariedade de certos argumentos que fez no livro. Monteiro Lobato, um entusiasta de Euclides e do livro "Os sertões", talvez tenha razão ao afirmar qual foi o mérito maior de Euclides: "O grande triunfo de Euclides foi meter um pouco de ciência na literatura.". A literatura brasileira era, até a publicação de "Os sertões", excessivamente pitoresca, romântica, açucarada, descomprometida com a realidade e copiadora subserviente de estilos e temas de autores europeus. Nesse grande e importante livro, que descreve uma grande tragédia, Euclides nos revelou uma parte desconhecida do país, o sertão e sua população marginalizada, esquecido, ignorado, isolado, quase desconhecido pelo litoral que era voltado para a Europa e vivia de costas para ele. Com seu livro, Euclides rompeu com a visão idílica que se fazia de nosso povo, considerado cordial, pacífico, romântico, bondoso, vivendo sem conflitos e como irmãos, denunciando as desigualdades, as injustiças, a opressão, a incompreensão, as diferenças, a violência, existentes dentro de nosso país. Mesmo equivocado com falsas ideias e mitos, e por conceitos estranhos à nossa formação, foi tão forte a denúncia feita pelo livro "Os sertões", feita com tintas fortes e a mais crua realidade da guerra de Canudos, que educa gerações que o leram e inspira respeito pelos que sofreram tal brutalidade naquele momento, e pelas violências que ocorreram posteriormente. Na sua generosidade, Euclides deixou claro que a guerra de Canudos teria sido evitada se os governantes antes tivessem mandado professores para o sertão, assim teriam evitado mandar soldados armados de metralhadoras depois, como acabou acontecendo, provocando a tragédia. O impacto do livro "Os sertões", sobre a cultura brasileira, foi impressionante, e continua sendo até hoje. Euclides revelou em seu livro muitas paisagens, lugares, veredas, tipos, gente esquecida, caminhos novos, dramas, tragédias, histórias. Depois de Euclides, outros percorreram essas trilhas que ele abriu, fazendo nascer obras literárias, científicas, sociológicas, históricas, geológicas, romances, contos, teses, peças de teatro, músicas, consorciando ciência e arte, como ele fez em seu livro. O que é inegável é que a presença de "Os sertões" tornou-se permanente e estimulante em todas as manifestações culturais do país.

Sem Euclides e o impacto de seu livro "Os sertões", a "Semana de Arte Moderna de 1922" teria se realizado em São Paulo? Mário de Andrade teria escrito a rapsódia "Macunaíma" (1928), em que incorporou lendas e mitos de todo o país? Gilberto Freyre escreveria o livro "Casa Grande e Senzala"? Graciliano Ramos escreveria os dramáticos romances "Vidas Secas" e "São Bernardo"? Villa Lobos teria composto a música "O Trenzinho do Caipira"? Sérgio Buarque de Holanda teria escrito o clássico "Raízes do Brasil"? Caio Prado Júnior teria escrito "Formação do Brasil Contemporâneo"? Guimarães Rosa teria escrito "Grande Sertão: Veredas" (1956)? Ariano Suassuna teria escrito "Morte e Vida Severina" e "A Pedra do Reino" (1971)? Rachel de Queiroz teria escrito "O Quinze"? José Lins do Rego teria escrito "Menino de Engenho" e "Fogo Morto"? E Jorge Amado teria escrito seus romances "País do Carnaval", "Suor", "Capitães de Areia", "Seara Vermelha", "Tenda dos Milagres"? Cândido Portinari teria pintado seus quadros magníficos, como "Os Retirantes"? Carlos Drummond teria escrito o poema "E agora, José?". O ator e diretor teatral José Celso Martinez Correa teria levado ao palco do Teatro Oficina a adaptação do livro "Os sertões" em cinco partes, a partir de 2002, num total de 27 horas de espetáculo que alcançou repercussão internacional?

Euclides inspirou também muitos escritores de outros países, pois as traduções de "Os sertões" causaram impactos profundos, como no húngaro Sandor Marái, prêmio Nobel de Literatura, que escreveu o romance "Veredicto em Canudos" (1960), e o peruano Mário Vargas Llosa, também prêmio Nobel de Literatura, que escreveu o romance "A Guerra do Fim do Mundo" (1981). ? bom ressaltar que a tradução de "Os sertões" para outras línguas já foi feita em 25 línguas, inclusive em chinês.

O legado de Euclides e de suas obras é difícil de ser avaliado e percebido completamente, mas é evidente que muito do que ele observou e colocou sobre o Brasil no livro "Os sertões", ainda perdura nas atrasadas estruturas materiais e mentais dos brasileiros, que decorrido mais de um século, resistem às transformações e mudanças, o que faz perdurar entre nós o atraso, a ignorância, os complexos culturais, os mitos petrificados, as superstições, a miséria, a exploração vergonhosa, a submissão das mulheres, a sobrevivência dos preconceitos de todas as ordens. Desde a sua publicação, nunca o livro "Os sertões" foi censurado ou proibido, mesmo nos períodos mais obscuros de nossa vida política. Se isso acontecesse, seria como decretar o desaparecimento de nosso país e de sua identidade.

O norte-americano Frederic Amory, biógrafo de Euclides, talvez tenha feito um comentário justo sobre a importância de Euclides e de "Os sertões" para a cultura brasileira: "A ponte (reconstruída por Euclides em São José do Rio Pardo) permaneceu por cem anos, até hoje, sem mudanças, enquanto sua antecessora caiu em dois meses, e o livro (Os sertões) durará enquanto o português for uma língua viva." (p.154)

Em São José do Rio Pardo, cidade onde Euclides da Cunha escreveu grande parte do livro "Os sertões", desde o dia 15 de agosto de 1912, data da morte de Euclides, sua população faz uma caminhada intitulada Romaria, saindo da casa onde ele morou até a cabana onde escreveu o livro, ao lado da ponte do rio Pardo que ele reconstruiu, onde são feitas homenagens. Em 1938, por iniciativa do médico Oswaldo Galotti organizou-se a primeira Semana Euclidiana, reunindo intelectuais e alunos para discutir a obra euclidiana. Anos depois, os restos mortais de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho foram trazidos do Rio de Janeiro para São José do Rio Pardo e repousam ao lado da cabana e da ponte. Todos os anos, as Semanas Euclidianas e as Romarias se realizam entre os dias 9 e 15 de agosto, reunindo multidões em torno de Euclides da Cunha e de sua obra.

A professora Clenir Bellezi de Oliveira, doutora em Literatura pela USP, mostra a importância e faz um apelo aos que ainda não leram "Os sertões": "Quando a gente lê Os sertões, lê de verdade, e eu li - sem bazófia, sem empáfia, sem arrogância, apenas li algumas vezes, é absolutamente impossível emergir da leitura sendo a mesma pessoa que éramos. Se você não acredita, vai ter de ler o livro todo. Quero muito que você teime comigo e que leia. Leia, criatura. Submeta-se a Euclides da Cunha, submeta-se ao Os Sertões." (Discutindo Literatura, ano 3, nº 15, Escala Educacional, São Paulo, sem data).

Euclides da Cunha e o livro "Os sertões" são lidos, pesquisados e analisados por críticos literários e outros intelectuais desde 1902, quando essa obra foi lançada, despertando discussões intermináveis sobre os mais diferentes aspectos do livro e de seu autor, principalmente no país e também no exterior. Opiniões opostas se chocam há cento e vinte anos e ainda estão longe de terminar, tamanha é a riqueza de temas e análises que suscitam em estudiosos das mais diferentes áreas de conhecimentos.

Talvez o que abone as críticas feitas contra Euclides, sem absolvê-lo delas, seja o fato de que ele era polígrafo e não um especialista nos diferentes assuntos que abordou, daí talvez a precariedade de certos argumentos que fez no livro. Monteiro Lobato, um entusiasta de Euclides e do livro "Os sertões", talvez tenha razão ao afirmar qual foi o mérito maior de Euclides: "O grande triunfo de Euclides foi meter um pouco de ciência na literatura.". A literatura brasileira era, até a publicação de "Os sertões", excessivamente pitoresca, romântica, açucarada, descomprometida com a realidade e copiadora subserviente de estilos e temas de autores europeus. Nesse grande e importante livro, que descreve uma grande tragédia, Euclides nos revelou uma parte desconhecida do país, o sertão e sua população marginalizada, esquecido, ignorado, isolado, quase desconhecido pelo litoral que era voltado para a Europa e vivia de costas para ele. Com seu livro, Euclides rompeu com a visão idílica que se fazia de nosso povo, considerado cordial, pacífico, romântico, bondoso, vivendo sem conflitos e como irmãos, denunciando as desigualdades, as injustiças, a opressão, a incompreensão, as diferenças, a violência, existentes dentro de nosso país. Mesmo equivocado com falsas ideias e mitos, e por conceitos estranhos à nossa formação, foi tão forte a denúncia feita pelo livro "Os sertões", feita com tintas fortes e a mais crua realidade da guerra de Canudos, que educa gerações que o leram e inspira respeito pelos que sofreram tal brutalidade naquele momento, e pelas violências que ocorreram posteriormente. Na sua generosidade, Euclides deixou claro que a guerra de Canudos teria sido evitada se os governantes antes tivessem mandado professores para o sertão, assim teriam evitado mandar soldados armados de metralhadoras depois, como acabou acontecendo, provocando a tragédia. O impacto do livro "Os sertões", sobre a cultura brasileira, foi impressionante, e continua sendo até hoje. Euclides revelou em seu livro muitas paisagens, lugares, veredas, tipos, gente esquecida, caminhos novos, dramas, tragédias, histórias. Depois de Euclides, outros percorreram essas trilhas que ele abriu, fazendo nascer obras literárias, científicas, sociológicas, históricas, geológicas, romances, contos, teses, peças de teatro, músicas, consorciando ciência e arte, como ele fez em seu livro. O que é inegável é que a presença de "Os sertões" tornou-se permanente e estimulante em todas as manifestações culturais do país.

Sem Euclides e o impacto de seu livro "Os sertões", a "Semana de Arte Moderna de 1922" teria se realizado em São Paulo? Mário de Andrade teria escrito a rapsódia "Macunaíma" (1928), em que incorporou lendas e mitos de todo o país? Gilberto Freyre escreveria o livro "Casa Grande e Senzala"? Graciliano Ramos escreveria os dramáticos romances "Vidas Secas" e "São Bernardo"? Villa Lobos teria composto a música "O Trenzinho do Caipira"? Sérgio Buarque de Holanda teria escrito o clássico "Raízes do Brasil"? Caio Prado Júnior teria escrito "Formação do Brasil Contemporâneo"? Guimarães Rosa teria escrito "Grande Sertão: Veredas" (1956)? Ariano Suassuna teria escrito "Morte e Vida Severina" e "A Pedra do Reino" (1971)? Rachel de Queiroz teria escrito "O Quinze"? José Lins do Rego teria escrito "Menino de Engenho" e "Fogo Morto"? E Jorge Amado teria escrito seus romances "País do Carnaval", "Suor", "Capitães de Areia", "Seara Vermelha", "Tenda dos Milagres"? Cândido Portinari teria pintado seus quadros magníficos, como "Os Retirantes"? Carlos Drummond teria escrito o poema "E agora, José?". O ator e diretor teatral José Celso Martinez Correa teria levado ao palco do Teatro Oficina a adaptação do livro "Os sertões" em cinco partes, a partir de 2002, num total de 27 horas de espetáculo que alcançou repercussão internacional?

Euclides inspirou também muitos escritores de outros países, pois as traduções de "Os sertões" causaram impactos profundos, como no húngaro Sandor Marái, prêmio Nobel de Literatura, que escreveu o romance "Veredicto em Canudos" (1960), e o peruano Mário Vargas Llosa, também prêmio Nobel de Literatura, que escreveu o romance "A Guerra do Fim do Mundo" (1981). ? bom ressaltar que a tradução de "Os sertões" para outras línguas já foi feita em 25 línguas, inclusive em chinês.

O legado de Euclides e de suas obras é difícil de ser avaliado e percebido completamente, mas é evidente que muito do que ele observou e colocou sobre o Brasil no livro "Os sertões", ainda perdura nas atrasadas estruturas materiais e mentais dos brasileiros, que decorrido mais de um século, resistem às transformações e mudanças, o que faz perdurar entre nós o atraso, a ignorância, os complexos culturais, os mitos petrificados, as superstições, a miséria, a exploração vergonhosa, a submissão das mulheres, a sobrevivência dos preconceitos de todas as ordens. Desde a sua publicação, nunca o livro "Os sertões" foi censurado ou proibido, mesmo nos períodos mais obscuros de nossa vida política. Se isso acontecesse, seria como decretar o desaparecimento de nosso país e de sua identidade.

O norte-americano Frederic Amory, biógrafo de Euclides, talvez tenha feito um comentário justo sobre a importância de Euclides e de "Os sertões" para a cultura brasileira: "A ponte (reconstruída por Euclides em São José do Rio Pardo) permaneceu por cem anos, até hoje, sem mudanças, enquanto sua antecessora caiu em dois meses, e o livro (Os sertões) durará enquanto o português for uma língua viva." (p.154)

Em São José do Rio Pardo, cidade onde Euclides da Cunha escreveu grande parte do livro "Os sertões", desde o dia 15 de agosto de 1912, data da morte de Euclides, sua população faz uma caminhada intitulada Romaria, saindo da casa onde ele morou até a cabana onde escreveu o livro, ao lado da ponte do rio Pardo que ele reconstruiu, onde são feitas homenagens. Em 1938, por iniciativa do médico Oswaldo Galotti organizou-se a primeira Semana Euclidiana, reunindo intelectuais e alunos para discutir a obra euclidiana. Anos depois, os restos mortais de Euclides da Cunha e de seu filho Quidinho foram trazidos do Rio de Janeiro para São José do Rio Pardo e repousam ao lado da cabana e da ponte. Todos os anos, as Semanas Euclidianas e as Romarias se realizam entre os dias 9 e 15 de agosto, reunindo multidões em torno de Euclides da Cunha e de sua obra.

A professora Clenir Bellezi de Oliveira, doutora em Literatura pela USP, mostra a importância e faz um apelo aos que ainda não leram "Os sertões": "Quando a gente lê Os sertões, lê de verdade, e eu li - sem bazófia, sem empáfia, sem arrogância, apenas li algumas vezes, é absolutamente impossível emergir da leitura sendo a mesma pessoa que éramos. Se você não acredita, vai ter de ler o livro todo. Quero muito que você teime comigo e que leia. Leia, criatura. Submeta-se a Euclides da Cunha, submeta-se ao Os Sertões." (Discutindo Literatura, ano 3, nº 15, Escala Educacional, São Paulo, sem data).