São José do Rio Pardo, ,

18/Dez/2021 - 23:06:17

O preço da longevidade

Maria Olívia Garcia




A medicina hoje nos permite prevenir e controlar doenças que no passado eram responsáveis por muitas pessoas não chegarem aos 70, 80 anos. No entanto não se questiona a contrapartida: a que preço o ser humano está conseguindo viver mais?

Basta uma visita a qualquer asilo ou clínica de idosos para perceber como é triste ?? e por vezes até humilhante ?? a situação daqueles que vivem demasiadamente, ou que ultrapassam os 85, 90 anos!

As mudanças causadas pela demência que vai sorrateiramente se instalando no cérebro do idoso muitas vezes não são percebidas por ele nem pelos familiares. Pouco a pouco a pessoa vai ficando mais apática, vai perdendo aquele brilho no olhar, já não tem o mesmo interesse nos passatempos e atividades que lhe eram comuns, mas ninguém dá muita importância ao fato. Passa, então, a relutar em fazer coisas novas, qualquer mudança é motivo de reclamação.

Depois a capacidade de tomar decisões vai dando sinais de declínio; o idoso vai necessitando de mais tempo para compreender ideias complexas e realizar tarefas rotineiras, até que um dia, a surpresa: ??Pegaram meu dinheiro?, ou ??Fulano está me roubando? vão se tornando frases repetitivas para tentar encontrar coisas perdidas.

De repente aquela pessoa sempre tão altruísta passa a pensar somente no que é bom para ela, sem levar em consideração a rotina e horários dos familiares. Começa a esquecer detalhes de acontecimentos recentes. Quando falha, fica extremamente irritada; começa a ter dificuldade em lidar com dinheiro; algumas até facilitam a entrada de ladrões em casa.

Uma segunda etapa tem início quando o idoso começa a se lembrar da mãe já falecida e de fatos de um passado distante, que se tornam mais presentes do que fatos recentes.

A confusão em relação ao tempo e ao espaço passam a ser comuns. Muitas vezes o idoso se perde, caso esteja afastada do ambiente familiar, ou então fica pedindo para ??ir para casa?, mesmo já estando nela.  Começa a se esquecer de nomes de pessoas da família ou de amigos, ou então confunde um familiar com outro.

Um belo dia, você chega na casa do idoso e a panela está derretendo no fogão, ou a chama está ligada sem nada nela e a torneira do banheiro está jorrando há horas, então os familiares começam a se preocupar. Mas aí o idoso provavelmente já estará chegando à terceira etapa, que é a demência avançada.

Nessa fase, ele se tornará incapaz de se lembrar de situações ocorridas há poucos minutos, por exemplo achar que já comeu quando nem chegou a hora da refeição, ou se esquecer de que já comeu, e pedir novamente o almoço ou o jantar.

Nessa terceira etapa, ele poderá perder a capacidade de compreensão ou de utilizar a linguagem; pode perder o controle da urina; não reconhecer amigos e familiares, precisar de ajuda para comer, lavar-se, tomar banho, arrumar-se e vestir-se. Pode ficar perturbado durante a noite, ficar inquieto, procurando, por exemplo, um parente falecido ou uma criança que não existe. Pode ainda ficar agressivo, principalmente ao sentir-se ameaçado; ter dificuldade em andar e ficar dependente de cadeira de rodas.

Estima-se que o número de pessoas com demência no mundo todo será superior a 35 milhões em 2050, segundo estudo do periódico Alzheimer Disease International. O que fazer diante dessa perspectiva?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, os cuidados paliativos são importantes, com a assistência de uma equipe multidisciplinar, para a melhoria da qualidade de vida do paciente e de seus familiares. Esses cuidados incluem a identificação precoce do problema, avaliação impecável e o tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais.

Assim que detectada a doença, logo no início, o idoso tem o direito de deixar esclarecido como quer ser tratado e para isso basta fazerem-lhe perguntas como: ??Quando  estiver dependente, quem gostaria que respondesse por você?? ou ??Caso haja uma piora clínica irreversível, você gostaria de ser submetido a tratamentos invasivos sem que haja evidência de melhora clínica?? Por mim, já tenho as respostas: Poderão responder por mim unicamente meus filhos e meu marido; e não, eu não quero ser submetida a tratamentos que prorroguem a minha vida biológica se meu cérebro já estiver fora da realidade!

Uma das decisões mais difíceis de se tomar é quando internar o idoso em uma clínica ou asilo, mas quando ele para de se locomover, o peso de seu corpo não deixará escolha a seus cuidadores. A impossibilidade de transferi-lo de um lado para o outro indicará que a tarefa se tornou impossível em casa.

Há como prevenir a demência? Segundo os especialistas no assunto, nada se pode fazer contra a carga hereditária, mas é possível evitar o uso de álcool, drogas e cigarro; controlar o colesterol, para evitar aterosclerose, controlar a pressão, o diabetes. Não tratar a depressão está relacionado à maior frequência de demências.

Fundamental é manter atividade física, social e intelectual. Manter-se ativo, trabalhando, lendo, saindo, conversando é importante. Também está comprovado que socializar-se e praticar atividade física  são imprescindíveis na prevenção da demência.

Enfim, a receita mesmo é viver, porque a vida é hoje!


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