São José do Rio Pardo, ,

24/Dez/2021 - 21:19:12

Educadores, não se esqueçam de Emílio

Redação

RAFAEL MARTINS DO NASCIMENTO




Politicamente, existe educação neutra ou desinteressada? Conforme já disse Paulo Freire, ao criticar as cartilhas do passado, não. Pois quem dá a letra, dá o tema. Se um educador se omite de problematizar o sistema político-econômico de seu tempo, está também sendo político em sua prática, seja por convicção, censura, autocensura ou até mesmo alienação, uma vez que não tem consciência do que acontece à sua volta. De forma direta ou indireta, educa-se para conservar ou transformar a sociedade vigente.


Rousseau, em seu tempo, foi um filósofo que pensou a educação como instrumento para mudar a sociedade em que viveu. Relevante para sua época, sua obra Emílio ou da Educação continua despertando o interesse de educadores. Publicado em 1762, trata-se de um romance filosófico dividido em cinco partes, onde o próprio autor se encarrega da educação de Emílio dos dois aos vinte e cinco anos de idade.
A primeira advertência que se deve fazer diante do livro é não encarar o seu texto como um manual prático de educação. Emílio é uma obra de caráter simbólico e, sobretudo, utópico. Conforme sugere a própria etimologia da palavra, é um "não-lugar" para o qual se caminha, mas nunca se pode chegar de fato. ? da contemplação e da meditação de seus conceitos que surgiram algumas práticas educacionais.
Um de seus conceitos mais importantes é o de que a criança é um ser especial, com especificidades próprias e não um homúnculo, isto é, um adulto em miniatura, o que Jean Piaget, no século XX, demonstrou através de experimentos que fundamentaram sua epistemologia genética. A conclusão básica destas experiências é que a criança possui qualitativamente uma lógica mental diversa da do adulto.


A legislação Brasileira é outro exemplo de como o conceito de Rousseau atravessou o tempo e permaneceu, pois o Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece e deixa claro que a criança tem o direito de ser criança, inclusive com prioridade na implementação das políticas públicas. Se na prática isto não se dá a contento, tal intenção se manifesta ao menos num plano formal.


Outra revolução provocada pela filosofia educacional de Rousseau é colocar o educando no centro do processo de ensino e aprendizagem. Até então, e muito desta prática continua presente, o centro deste processo era o professor. O aprendizado de Emílio ocorre muito mais de forma ativa, através da experiência e não da simples transmissão de conhecimento. De certa forma, a figura do professor mediador tão em voga hoje em dia reflete um pouco essa ideia, isto é, cabe muito mais ao professor preparar situações onde o educando aprende ao explorá-las. Tal prática está atrelada ao que veio a ser chamada de educação negativa ou indireta.


Entretanto, pensando a partir de Emílio, tal prática se esvazia de sentido se o educando não for levado a pensar se o que está posto é de fato o que ele quer para si e sua vida em sociedade. Para Rousseau, o homem é bom por natureza e a sociedade, que é desigual, corrupta e cheia de vícios, corrompe-o desde a infância. Por outro lado, ainda segundo o pensador, sem ela, isolado, o homem seria um ser miserável. A solução que o pensador encontra para este impasse vem justamente através da educação. Uma educação negativa, ao invés de lhe impor um modelo de sociedade a ser aceito, leva o educando e pensar se este é o modelo que ele quer para viver.


Esta filosofia educacional influenciou diversos educadores. Na educação brasileira, o exemplo mais flagrante é Paulo Freire. Também inconformado com o modelo político-econômico no qual viveu, Freire recusou-se a aceitar o discurso fatalista neoliberal, onde o estado reduz-se ao mínimo e o mercado é quem dá as cartas, cabendo ao indivíduo a ele se adaptar. Ao contrário, Paulo Freire queria para o educando a posição de sujeito de sua própria história. Para tanto, o educador brasileiro, assim como Rousseau, colocou-o no centro do processo de ensino e aprendizagem. A título de ilustração, podemos citar o famoso método de alfabetização de jovens e adultos desenvolvido por Freire, no qual o educando era alfabetizado a partir das palavras de maior significado para si, levando em conta seu próprio contexto social. Destas palavras, denominadas palavras geradoras, surgiam os temas geradores, através dos quais, além de alfabetizar-se, o educando era levado a debater e refletir sobre os problemas vivenciados por ele e sua comunidade, promovendo o que Freire chamou de conscientização.
Longe do fim, a narrativa de Emílio ou da Educação continua sendo uma miragem que requer novos olhares, novas avaliações.


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