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15/Jan/2022 - 21:11:16
Grandes histórias e boas recordações
Felipe Quessada
JURO QUE ? VERDADE
Certa vez o Leoberto Morgan, o saudoso Pinceleta, me pegou de canto chorado e tive que ouvir esta:
??Foi nos anos 70; eu e meus amigos, que aqui passo a nominar como Nico Trovador e Chapéu de Couro, fomos passar um final de semana em um ranchinho, aqui pertinho da cidade, e levamos um quilo de carne, acho que era de quarta, pois estava muito dura, e meio-quilo de linguiça, acho que era mista, pois não estava com cara boa, e um garrafão de cinco litros da gostosa Pinga da Lage (no francês, Pingô di Lagiê).
A finalidade era pescar, tomar umas e outras e saborear o churrasco. A bordo de uma pequena canoa de madeira, Nico e Chapéu passaram horas pescando e bebericando, e eu servindo o ??suculento? churrasco aos idosos amigos, que sorriam a troco de nada, pois teriam acabado de adquirir bonitos pares de dentaduras. A pinguinha já tinha subido na moringa deles e, sem saber o porquê, Nico engasgou com um pedaço de carne, talvez não tenha conseguido mastigar direito, e foi aí que ele deu uma baita de uma tossida e lá foi a nova e bonita ??perereca? pra dentro do rio. O ??menino? ficou apavorado, sem saber o que fazer. Foi quando o seu parceiro deu um mergulho na água e, para zoar com o companheiro, ainda debaixo da água tirou sua dentadura e ao sair do rio, veio com ela na mão, e com alegria gritava: ??Achei, achei sua perereca?.
Nico não se aguentava de alegria. Socou a bichinha na boca. Surpresa... não deu certo. Irritado, pinchou-a no meio do rio, esbravejando e dizendo que não era a sua, mas de alguém que já teria morrido. Foi aí que a festa acabou. O Nico Trovador e o Chapéu de Couro ficaram ligeiramente embriagados, não conseguiram comer a carne dura e os sorrisos amarelaram. ??Juro, Felipe, foi verdade! Pode perguntar pro Nico e pro Chapéu!?
Então perguntei o nome verdadeiro deles e a resposta veio: ??Posso falar tudo, menos o nome deles, eles são da soçaite e não vai pegar bem...!?
? S? DAR EXEMPLOS
Em um dos jantares de pescaria, enquanto aguardávamos a leitoa pururucar, muitas conversas rolaram, e claro, em sua maioria sobre pescaria, até que o Hamilton Torres soltou essa e é bom lembrar que ele usa muito em sua fala as palavras ??sabe? e ??né?, então:
??Sabe, na década de setenta, né, eu, meu pai, Afonso Vigorito, Felipe e Ruy Barbosa estivemos pescando em Poconé, sabe, né, estado do Mato Grosso, onde ficamos acampados à margem do rio Cuiabá. Passados alguns dias de pesca, né, apareceu em nosso acampamento um senhorzinho de 85 anos pra mais, né, que ficou sabendo né, por boca de um dos meus ??amigos?, sabe, que eu sou médico, então, né, me intimou a fazer um rápido checkup. Sabe, né, não tive outro saída, mesmo porque, né, é bom aplicar nesses lugares a política da boa vizinhança, então lhe perguntei: Sabe, como está se sentindo?
?? Eu nunca me senti tão bem! Minha nova esposa tem 22 anos e está grávida! Esperando um filho meu! Qual sua opinião a respeito, doutor?
Refleti por alguns segundos, né, e então lhe disse:
Sabe, vou lhe contar uma estória. Eu conheço um cara que era caçador fanático. Nunca perdeu uma estação de caça, né. Mas, um dia, por engano, né, colocou seu guarda-chuva na mochila, ao invés de sua arma. Quando estava na floresta, repentinamente uma onça apareceu em sua frente! Sabe, ele sacou o guarda-chuva da mochila, apontou para a onça, e esta, inexplicavelmente, caiu morta à sua frente, né.
?? Isto é impossível, disse o senhorzinho, algum outro caçador deve ter atirado na onça!!!
?? Exatamente... Esta é minha opinião a seu respeito!
Sabe, foi aí que a consulta acabou, né?.
OLHOS DE ÁGUIA
Tenho um amigo que é médico otorrinolaringologista e pescador que, nos anos 70, quando trabalhava em atendimento de emergência de determinado hospital, começou se especializando em ??enrosco de espinho?. Pacientes que chegavam com espinhos de peixe enroscados na garganta ou esôfago passavam, necessariamente, pelo Raio-X. E de tanto analisar essas radiografias ele acabou aprendendo a ir além do diagnóstico, definindo a espécie, o peso e o tamanho do peixe que o paciente havia comido, concluindo se estava acima ou abaixo do peso permitido por lei.
Isso foi naquela época. Hoje ele está indo muito além, já conseguindo até determinar o sexo do peixe.
UM DIA DO PESCADOR, UM DIA DO PEIXE
Em uma pescaria onde estavam presentes, Francisco Lancellotti, Carlão do Taxi, Wilson Ferracciolli, Ricardinho Possebon, João Marcos e eu, apenas o João se lembrou de levar na bagagem uma câmera fotográfica, considerando que, ao voltarmos com histórias de peixes enorme, nem todos acreditariam sem conferir as imagens.
Depois de tirar muitas fotos e descarrega-las em um computador da pousada, ele novamente voltou a pescar e apagou tudo para ganhar mais espaço na memória eletrônica. Começaram uns gritos no nosso barco: ??peguei, peguei?; era o próprio João festejando a fisgada de um graúdo Tucunaré, que devia pesar uns 12 quilos, segundo ele mesmo. Com muito esforço e sacrifício, ele embarcou o nervoso bicho, que de tanto se debater, soltou-se do anzol e pulou de novo para a água. E junto com ele a câmera fotográfica que o João teria comprado por R$ 2.500,00.
Inconformado, João se plantou naquele lugar com esperança de reencontrar a câmera. Já era noite quando vimos alguns clarões vindos de dentro da água. Segundo o Ricardinho, era o Tucunaré fujão fotografando o ex-dono da câmera e seus companheiros. Um dia do pescador, um dia do peixe.
CONVERSA DE PESCADOR
Bar também é cultura, segundo alguns assíduos frequentadores. Dia desses, quando nós, integrantes desta pescaria, tomávamos umas geladinhas no Bar do Nagai, tivemos que ouvir uma conversa do Carlão e do Wilson. O papo era mais ou menos assim:
?? Wilson, você foi convidado pra ceia de Natal que vai acontecer no rancho do Vadinho?
?? Não, Carlão.
?? Festão! Vai ser bacalhau na carretilha.
?? Bacalhau na carretilha?
?? ? sim. Dizem que é muito bom, pelo menos é o que o Mário Rui, o Dito Ratz e o Clovinho Pacheco comentam.
?? E como é isso, Carlão?
?? Bem, eu nunca comi, mas você sabe, o Vadinho só faz coisas boas. Ele compra a parte traseira do bacalhau e fisga o rabo à linha da carretilha e coloca água na panela. Quando abre a fervura, ele solta a carretilha, bem devagar, até o rabo afundar na fervência, e deixa quieto por algumas horas. Depois ele recolhe o rabo e joga umas coisas na água, como batata, tomate, cebola, azeitona, tudo a gosto. Depois de 49 minutos, está pronto pra servir.
?? Sabe, Carlão, isso parece ser muito bom, mas quanto vai custar por pessoa?
?? Barato! Apenas R$ 194,50 por pessoa. Mas é lógico que, por esse preço, não está incluída a bebida, segundo o Vadinho. E aí, Wilson, vai nessa?
Wilson mandou goela abaixo uma dose da gostosa cachaça Da Lage, olhou pra baixo, pra cima, pra um lado e pro outro, pensou mais um pouco e respondeu:
?? Sabe, Carlão, neste Natal vou fazer retiro espiritual. Pula eu.