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15/Jan/2022 - 21:18:21
A força das palavras
Márcio José Lauria
Não foi sem razão que um tal A. Roche disse esta trivialidade: ??O conhecimento de uma língua se resume, em definitivo, em se saber de cor um grande número de frases?. Achamos engraçada e original a linguagem infantil porque, antes dos cinco anos, a criança ainda não decorou tudo que usará decorado pela vida toda. Lembro-me das muitas frases originais que meus filhos criaram naquela fase de travar a mais terrível e vã das lutas ?? a luta contra as palavras, no dizer de Carlos Drummond de Andrade. São criações deles:
Passear na ponte do leão (= pontilhão).
Estudar na Escola Rormal (= Normal)
Ir ao auspital (= hospital).
Ver o trem fazer uma nobra (= fazer manobra).
Embarcar na rovidoária (= rodoviária).
A Linguística chama a isso de ??estranhamento?, responsável também por maravilhosas construções poéticas em que seus criadores dão sentidos novos a palavras e expressões do dia a dia. O estranhamento é a força e a originalidade da poesia, em verso ou não.
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Ainda por este motivo os estrangeiros parecem tão cômicos ao exprimirem-se em nossa língua, que eles não dominam inteiramente, nem depois de longuíssima permanência no país. ? que quase sempre quando se expressa em outro idioma, ainda se pensa no idioma pátrio. Não temos noção de como é difícil lidar com as particularidades do português, especialmente o infinitivo pessoal, o futuro do subjuntivo e os verbos sem sujeito... Isso sem se falar nos casos especiais de concordância e de regência. Daí a afirmação, um tanto exagerada, de que uma pessoa pode dizer que domina bem uma língua estrangeira não quando pensa nela, mas quando sonha nela!
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As frases feitas e os provérbios ?? o máximo em matéria de condensação memorizada da sabedoria ?? dão margem a um sem-número de associações de ideias, que abrem imaginosos modos de combinações sonoras e de transformações arbitrárias de significados. Basta que haja a união de certa habilidade no aproximar palavras e de um mínimo de acuidade intelectual para que se aprecie o resultado incomum, umas vezes cômico, outras chocante, outras ainda de enigmática profundidade. Alguns exemplos espirituosos:
Quem ri por último... é retardado.
Gato escaldado... morre.
Os últimos serão... desclassificados.
Quem espera... fica louco da vida.
Depois da tempestade vem a ... gripe.
Se Maomé não vai à montanha... é que prefere a praia.
A frase feita ??Quem dá aos pobres empresta a Deus? assumiu esta forma de alta ironia: ??Quem dá aos pobres e empresta, adeus?.
O êxito na compreensão dessas notáveis tiradas está diretamente relacionado com o conhecimento da forma original delas e com a captação do espírito que presidiu sua deturpação.
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A publicidade e a propaganda levam a extremos os esforços de criação de frases chocantes, destinadas exatamente a chamar a atenção do ouvinte/leitor, desligado de tudo em meio ao constante bombardeio de mensagens a que se vê submetido na televisão, no rádio, nos jornais e revistas.
Há um site na internet que coleciona frases interessantíssimas, criadas por esses poetas da mídia que, por motivos ponderáveis, foram rejeitadas pelos anunciantes. Comentarei três delas:
Conhecido slogan diz:
Volkswagen ?? você conhece, você confia.
Um desses poetas da mídia fez pequeníssima alteração:
Volkswagen ?? você conhece, você confiat...
Evidente que a montadora alemã nem quis saber dessa engenhosa e elogiosa referência à montadora italiana, sua grande rival no mercado do Brasil e do mundo.
Margarina Primor ?? uma delícia!
Delícia é nome de produto concorrente...
Não há quem não saiba o sentido das expressões pra burro (= qualquer coisa superlativamente considerada: chover pra burro, mulher feia pra burro) e pai dos burros (= dicionário, por resolver as dúvidas de quem ignora). Pois bem, um desses gênios da mídia colocou uma foto enorme da versão escolar do dicionário Aurélio e apenas escreveu: Bom pra burro... Uniu as referências da expressão pra burro e da definição pai dos burros, mas a editora do dicionário também percebeu a conotação negativa de todas essas associações: aquele dicionário só seria destinado a pessoas de QI baixo?
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Tamanha preocupação com as repercussões negativas da mensagem tem sua razão de ser. Há muitos anos foi lançado no mercado brasileiro um sabonete internacional com forte cheiro de desinfetante ?? o Lifebuoy, literalmente ??a boia salva-vidas?. Traduziu-se também o que sua propaganda nos Estados Unidos dizia com sucesso: ??O sabonete que combate o c.c. (cheiro de corpo)?, imitação do b.o. (body odor). Inesperadamente as vendas do produto despencaram no Brasil, apesar ou por causa da maciça propaganda em revistas e nas rádios. Seus usuários começaram a fazer uma associação que não havia sido prevista: quem compra Lifebuoy é porque tem c.c.... Ainda mais que ??você não sente, mas os outros sim?... Tempos depois, o produto foi relançado, perdida a cor original (vermelho carregado), o cheiro de desinfetante e a referência ao cheiro de corpo. Curiosamente até hoje o ??c.c.? é empregado na linguagem coloquial e dicionarizado sob a forma cê-cê, sem que se relacione o termo com o tal sabonete.
Percebam a ironia existente nas frases abaixo:
Prêmio Nobel da Guerra.
Paciência de jóquei. (Frase que ouvi de alguém que queria dizer ??paciência de Jó?)
Lavar as mãos, como Afonso Pirata. (Ou seja, Pôncio Pilatos)
Álvares de Azevedo, o poeta da dívida. (Seu título era ??poeta da dúvida?)
Castro Alves, o poeta dos ex-cravos. (Dos escravos)
A longevidade de Pepino o Breve. (Ele era de baixa estatura)
Fundo de Garantia por Tempo de Sevícias.
As primeiras impressões são as que penduram.
Devagar se vaia ao longe.
Encarte do miocárdio.
Orchestra de Rythmos Actuaes.
Abaicho a inguinoranssia.
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Tem razão, pois, Cecília Meireles que, no Romanceiro da Inconfidência, tece longas considerações sobre a força das palavras. Começa assim o romance LIII ou das palavras aéreas:
Ai palavras, ai palavras,
Que estranha potência a vossa!