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15/Jan/2022 - 21:23:45
Como se acaba com uma pandemia?
Maria Olívia Garcia
As pessoas festejaram o Natal e o Ano Novo como se a pandemia estivesse no fim, afinal estamos todos vacinados, muitos já tomaram até a terceira dose! No entanto, bastava acompanhar as notícias vindas da Europa para saber que outra onda viria por aí, e ela chegou rapidamente ao Brasil.
Como todos sabem, a variante ?micron já se espalha pelo país, sendo altamente contagiosa. Por que esse nome? Para quem ainda não sabe, ômicron é a 15ª letra do alfabeto grego e essa palavra vem de mikrón, que significa "o mais rápido, breve" - e devido à rapidez de contágio dessa variante, a Organização Mundial de Saúde escolheu esse vocábulo para denominá-la.
O mundo todo, atônito, só quer uma resposta: quando isso vai acabar? Como tem fim uma pandemia?
Conforme o dr. Murilo Neves, em entrevista ao Terra, todas pandemias são permeadas por um mesmo sentimento, o medo. Ele lembra o pânico que o Ebola causou, quando matou mais de 11 mil pessoas na África, porém na Europa só houve 3 casos. Ainda assim, os pacientes africanos que chegavam aos hospitais ingleses com sintomas de febre, dor de cabeça e gripe causavam medo e desespero aos profissionais da saúde, que se recusavam a atendê-los.
Há 60 gerações houve uma série de surtos de peste bubônica, causada por uma bactéria transmitida por pulgas que vivem em ratos e por gotículas respiratórias de pessoas infectadas. Essas ondas foram devastadoras, dizimando centenas de milhões de pessoas ao longo de 2 mil anos.
Para o professor Steven Riley, do Reino Unido, o surto de peste negra de 1346-1353 foi o mais mortal de todos, vitimando milhões. Atualmente poucos ainda morrem dessa doença, que parece ter sido controlada com uma quarentena rígida e melhoria das condições sanitárias, entre outras medidas. No entanto isso só foi possível com uma compreensão de como se dava a propagação da doença, o que vale ainda hoje. Na Mongólia, em julho de 2021, ainda ocorreram casos dessa peste, portanto ela não foi totalmente erradicada, mas já não atinge grandes proporções, pois sabemos como evitá-la e pode ser tratada com antibióticos.
A partir de 1520, vários surtos de varíola também fizeram muitas vítimas. Causada pelo vírus Varíola minor, essa é uma das doenças mais mortais, causando pústulas repletas de fluido em todo o corpo e já causou a morte de 3 em cada 10 pessoas infectadas. Sua transmissão ocorre por gotículas expelidas pelo nariz, boca ou feridas da pessoa que se contaminou. Só no século XX, 300 milhões de pessoas morreram com essa doença.
Graças à vacina desenvolvida em 1796 por Edward Jenner, médico britânico, e os esforços da comunidade científica, em 200 anos essa doença foi totalmente erradicada.
Uma doença endêmica que ocorre nos países mais pobres é o cólera, que se transformou em pandemia em 1817. Tem como causa comida e água contaminadas com a bactéria Vibrio cholerae, que já matou milhões de pessoas e ainda hoje faz, nos países mais pobres, entre 100 a 140 mil vítimas todos os anos, de acordo com a OMS.
A pandemia do H1N1 de 1918, também conhecida como gripe espanhola, matou entre 50 a 100 milhões de pessoas no mundo e foi contida com medidas de isolamento e quarentena para conter a transmissão. Em 1920 ocorreu outra onda dessa influenza, cuja cepa tornou-se mais benigna e ainda hoje circula com ciclos anuais.
Em 1968 a gripe de Hong Kong matou 1 milhão de pessoas e ainda circula sazonalmente, assim como a gripe suína, que infectou 21% da população mundial em 2009.
Depois vieram as ameaças da SARS e da MERS, coronavírus mais fáceis de conter. A Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) matou mais de 800 pessoas entre 2002 e 2003 e pouco depois a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) matou 912 pessoas, a maioria na Península Arábica.
Pois bem, a versão evoluída e muito mais mortal do que a SARS de 2003 é o SARS-COV-2, responsável pela epidemia que enfrentamos atualmente e é considerado único, pela gama de sintomas que apresenta - de inexistentes a mortais - e ao alto nível de transmissão.
Quanto à questão do final desta pandemia, infelizmente os especialistas dizem que não há como prever quando termina. A única erradicada, como vimos acima, foi a de varíola, as outras chegaram ao final com a imunização de rebanho, medidas de prevenção ou se tornaram menos letais após mutações do vírus causador.
A variante ?micron parece ser menos letal para quem já está vacinado, mas já surgiu a Deltacron (?micron+Delta) no Chipre e uma jornalista de Belo Horizonte que passou as férias na Europa já foi diagnosticada com essa cepa, portanto Camila Fiorini é uma das 25 pessoas no mundo com essa variante.
Em BH também foram identificados 14 casos de "Flurona" (Influenza+Corona), infecção por dois vírus: o da gripe mais o do Covid-19.
Portanto a impressão que tenho é a mesma quando se pergunta ao médico se o paciente está bem e ele diz: "Vocês têm fé? Então rezem!"
Tedros Adhanom, diretor da OMS, já alertou que nenhum país sairá da pandemia com doses de reforço enquanto houver países com pessoas não vacinadas, pois isso tenderá a prolongar a pandemia, dando ao vírus mais oportunidade de se espalhar e sofrer mutações.
Obviamente deveremos continuar por muito tempo usando máscara (já desenvolvi certo pânico de tirá-la fora de casa), álcool gel e tomando doses de reforço das vacinas, mas enquanto não houver uma distribuição equalitária de renda e de vacinas no mundo, enquanto houver pessoas na miséria, com falta de saneamento básico, alimentação saudável e atendimento médico de qualidade, creio que não se conseguirá colocar um fim nesta pandemia. Por que raios em todos esses anos, com todas essas experiências, ainda há pessoas egoístas e gananciosas que não compreendem isso?!