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12/Fev/2022 - 16:48:47
Memórias da Casa e do Mestre
RedaçãoPAULO HERCULANO
Deixo o ostracismo voluntário em que me encontro por uma causa nobre - porém, que abriga em si uma tristeza única para mim e para tantos.
A notícia da perda do professor Márcio Lauria é um desses fatos que merecem que nós expressemos a gratidão por termos sido contemporâneos dessas pessoas que, a um só tempo, nos inspiram e nos comovem.
Nós, euclidianos de novas e velhas gerações, perdemos um símbolo. Era a voz da sabedoria e da experiência, aberto ao novo, mas que sempre reconhecia que as tradições exigem raízes profundas, que não podem se permitir que se movam pelos ventos incertos dos modismos.
Queria eu poder traduzir com a pequenez das minhas palavras o sentimento de um povo diante desta notícia - mas, pesar dos pesares, não tenho a verve, a eloquência, a erudição e a sabedoria daquele que não mais está entre nós.
A notícia de sua perda chegou a mim com muita dor e uma certeza. A dor, na qual me solidarizo com amigos, parentes, admiradores, alunos e tantos outros, que sentiram a perda de um dos nossos maiores. A certeza é exatamente esta: perdemos um gigante, um de nossos maiores, aquele que fez do magistério uma vocação, que fez de sua vida pública um exemplo, que fez de seu próprio nome um sinônimo de seu próprio conhecimento sobre nós, nossa gente, nossas coisas.
Gerações inteiras de professores foram esculpidas (e a expressão é bem esta mesma, es-cul-pi-das!) pelo saber de Márcio Lauria. Hoje, somos tomados por uma angustiante sensação de orfandade, de perda de nossa referência intelectual.
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Era uma tarde de 9 de agosto, há mais de 30 anos. Minha primeira Maratona Intelectual, quando conheci duas instituições que, de certa forma, moldaram-me o caráter.
Atrasado, adentrei pela primeira vez na Casa Euclidiana, em seu térreo. Desta Casa, tenho ainda hoje algumas das minhas melhores e mais doces lembranças, numa história que ainda hoje se constrói agosto após agosto.
Era tudo muito estranho, minha timidez que ainda hoje me acompanha não permitia que me aproximasse demais de todos, mal sabia que ali estariam, no mesmo ambiente, apresentando-me a um mundo que nele ainda vivo, a Casa e o Mestre.
A Casa, espécie de templo, que em minha adolescência mal percebia no coração da cidade. Era indiferente, pouco convidativa.
Mas o Mestre, ah, o Mestre!
Ao adentrar no lugar, percebi ao centro um homem de fala firme, convincente. Daqueles cuja voz e tom nos dão a certeza de que em suas palavras estão anos de estudos, paciência, o entendimento que somente os grandes têm de que conhecimento é desses tesouros que se distribui gratuitamente, e que quanto mais se dá aos outros, mais dele se tem.
Não lhe sabia o nome, nem ousei perguntar.
Ao seu redor, como que aos seus pés, uma roda de alunos dava-lhe atenção em cada palavra, em cada ensinamento. De alguma forma, aquele momento ficou eternizado em minha memória como algo iconográfico. Os alunos e seu mestre, aos quais alimentava com o impalpável, gerando em nós ainda mais fome, mais desejo, num virtuoso ciclo que ainda hoje nos acompanha.
Em dado momento, corrigiu um erro de português da própria programação, talvez uma concordância que com nada concordava, uma vírgula fugidia no tempo e lugar errados. Foram estas as minhas primeiras impressões, uma memória que não se apaga, passados mais de trinta anos. Lembrar-me daquela tarde de 9 de agosto, diante da perda de Márcio Lauria, é como o título daquele filme e livro famosos, "30 Anos esta noite". Inaugura-se, nesta cidade, um tempo que pode ser só noite, daquelas noites em que se perde o farol da referência, que nos coloca no rumo de um porto seguro, que nos traz de volta ao sólido da terra, da nossa terra.
A Casa permanece conosco. O Mestre, se foi.
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Anos depois, tornamo-nos amigos. Passados todos esses anos, nele me inspiro e espelho, como homem público que conhece o que há na alma do seu povo.
Era uma referência moral, intelectual, ética. Lamento não ter aproveitado ainda mais de sua generosa companhia nas deliciosas conversas que tínhamos, na redação do antigo Democrata.
De alguma forma, aquele momento da manhã de 9 de agosto se repetia, era o aluno todo ouvidos ao Mestre. A Casa, claro, era outra. Mas o Mestre será sempre o Mestre, não importa o lugar.
O texto fino e inteligente, a sabedoria, a erudição, o chamar as pessoas pelos seus nomes, a memória extraordinária, o recato e a eloquência adequados para cada momento.
Lembro-me que, muitos anos atrás, familiares de outro gigante, que tive o mesmo prazer de conhecer, Oswaldo Galotti, disseram, quando da doação do seu acervo à Casa Euclidiana, sobre uma antiga crença indígena, segundo a qual as pessoas, depois que partem, permanecem vivas em seus pertences.
Ainda envolvido pela triste notícia, busquei em minha pequena biblioteca um dos livros de Márcio Lauria. Achei um exemplar de "Tempo ao Tempo", de 2008. Era o pertence que, estando certa a crença indígena, mantém vivo o Mestre, cujas palavras hão de perpetuar mais do que a memória.
Na dedicatória, a gentileza de sempre: "Ao amigo Paulo Herculano, no dia em que entendemos o sentido de massificação. Abraços"
Lamento não lembrar o motivo da referência a "massificação", citada na dedicatória. Ao menos, não no contexto citado. Agora, resta-me a certeza de que deveria ter ficado ainda mais tempo ao redor do Mestre, ouvindo-lhe as palavras de saber. Enfim, o tempo chegou, implacável e triste, naquela manhã de terça. E tudo o mais é massa e silêncio.
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Tornamo-nos colegas do Ciclo de Estudos e do Conselho Euclidiano, neste último caso, da primeira formação. Ainda era o aluno aos pés do Mestre, sempre. Quisera eu poder ficar mais um pouco ali, neste mesmo lugar, uma última vez que seja.
Até hoje me penitencio, intimamente, por não ter escrito nada sobre a perda de outro dos nossos gigantes, professor Rodolpho Del Guerra.
A triste certeza que tenho é de que estão indo todos, uma geração irrepetível de mestres.
As crônicas de Lauria tinha o cheiro do povo deste lugar, nossa gente, nossos costumes. Se o cronista é o homem do tempo, como o nome sugere, aquele que observa o tempo e seu passar, e o eterniza em palavras, então Márcio Lauria ganhou a eternidade, pois retratou como poucos o passar do tempo, das pessoas, dos fatos, viveu a história como protagonista, a escreveu no seu impecável português, a entendeu na perspectiva histórica de sua erudição.
A verdade é que todas as cidades têm o seu intelectual-mor. Perdemos o nosso. A cadeira está vazia, e assim permanecerá.
Das muitas honras desmerecidas que já recebi, uma das principais foi ter sido incumbido, em uma Semana Euclidiana passada, de saudar o Mestre, escolhido para a conferência oficial da Semana daquele ano. Era o aluno reverenciando o Mestre. Embora a situação não sugerisse isso, estava eu ali, em outra Casa, mas ainda ao redor do mesmo Mestre, falando pouco, para poder ouvir-lhe mais.
Se a generosidade do espaço me permitir, publico o discurso de saudação por aqui.
Valeu, Mestre. Que sua nova Casa lhe reserve o descanso merecido aos bons. E você foi o melhor!