São José do Rio Pardo, ,

12/Fev/2022 - 17:02:51

Adeus ao mestre Márcio José Lauria

Redação

LUÍS TRINCA FILHO




Tive o privilégio de conviver com seu Márcio semanalmente no jornal por vinte anos, ao menos.

Invariavelmente às quintas-feiras, nós "revisávamos" a crônica da semana, trocávamos vocábulos repetidos, suprimíamos vírgulas, "tratávamos" as palavras, como ele dizia, para deixar o texto uniforme e perfeito para a edição da semana.

Era uma alegria quando chegava à Redação, sempre alegre e reclamão ?? das escadas, da falta de lugar para estacionar, da falta de café...

Quando o conheci, seu Márcio estava afastado da lides jornalísticas havia alguns anos, depois de escrever semanalmente para a Gazeta por anos a fio.

Em 1994, dividi o jornal em dois cadernos, um deles reservado aos temas culturais e articulistas. Para alimentá-lo, comecei a republicar antigos textos de seu livro "Tempo & Memória", de 1986, e que começaram a repercutir. Um deles, dedicado à professora Laudelina de Oliveira Pourrat, causou tamanha comoção, que ele precisou escrever outro, inédito, acrescentando os inúmeros comentários que recebera. E assim o jornal passou a estampar seus artigos semanalmente, um inédito e três republicações do livro, depois dois inéditos, três, até que a partir de 1996 começou a publicar suas crônicas inéditas, semanalmente, até 14 de abril de 2018, a última. Foram 22 anos ininterruptos.

Depois disso o jornal continuou a publicar textos selecionados, sempre com boa repercussão.

No começo, os textos chegavam manuscritos, por vezes datilografados. Eu mesmo digitava, imprimia na matricial e levava à noite até a Faculdade, onde era feita a revisão final e a aprovação para a publicação.

Aos poucos, seu Márcio foi se rendendo à informática e logo os artigos começaram a ser entregues à Redação em disquetes, já digitados e revisados. Da informática para a Internet foi um pulo e logo os textos começavam a chegar por e-mail, sempre às quartas-feiras. Certa vez me disse que começava a esboçar a crônica na segunda, dava forma na terça e finalizava na quarta... Muitas vezes tive que correr até sua casa para acudir por algum texto perdido, deletado, sumido misteriosamente. Na maioria das vezes estavam na lixeira do computador...

Brigou bastante com a Internet, mas chegou a dominá-la razoavelmente. Descobria novidades no streaming e redescobria clássicos que recomendava a todos. Acompanhava séries e programas de TV, almoçava assistindo "Friends", na Warner... Trocávamos muitas figurinhas sobre cinema, italiano principalmente. Algumas vezes mandei-lhe cópias de filmes de Fellini e Monicelli que ele assistia até a madrugada e que resultavam em belas crônicas.

Também tive a honra de participar da elaboração de alguns livros seus, como "Vidro de Aumento", em que fiz a diagramação, "Tratador de Palavras", digitalização e organização dos textos e "Terra Nossa", seu último, de 2015, em que fiz a seleção dos artigos já publicados em jornal.

Quando passei a publicar o "Cidade Livre do Rio Pardo" ganhei o melhor dos colaboradores e incentivadores. A cada edição, sugeria pautas, relembrava fatos, ajudava a reconhecer antigas fotografias, a esclarecer momentos da história local. ? de sua autoria o slogan do jornal ?? "presentificando o passado".

Entre suas muitas atividades, seu Márcio foi professor no Euclides, Faculdade, Unifeob e UNIP, advogado, foi diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e Letras, diretor do Grêmio Euclides da Cunha, Centro Cultural Ítalo-Brasileiro, Casa de Cultura Euclides da Cunha e membro fundador do Grupo Amigos da Cidade e do Conselho Euclidiano.

Fotógrafo dos bons, deixou vasto registro de imagens digitais que revelam a cidade em diferentes tomadas. Com a máquina fotográfica no porta-luvas, não hesitava em parar para conseguir algum ângulo perfeito. Numa das vezes quase causou um pequeno congestionamento na rua Dr. João Gabriel Ribeiro ao parar o carro na hora do rush para clicar o pôr do sol no morro do Cristo.

Quando completou 85 anos, seus filhos organizaram uma memorável festa que reuniu muitos de seus amigos ("os que restaram", ele me disse depois). Apesar do convite, não compareci, cansado da dura semana no jornal. Depois veio a reprimenda dupla, na chegada e saída de sua visita semanal. Na despedida, na escada, disse-lhe que estaria presente na festa de 90 anos, sem falta. Ele cerrou os olhos e vaticinou que não haveria festa de 90 anos...

Já doente, fui visitá-lo algumas vezes, sempre pisando em ovos, com a sensação de causar algum incômodo. Telefonava antes e com o aval de suas cuidadoras, buscava alguns momentos de conversa que se estendiam por mais tempo que o necessário. Queria saber do jornal, dos artigos que estavam sendo republicados, do Paulo, do Felipe, dos colunistas... E logo nos embrenhávamos pelas histórias antigas, reavivando fatos e personagens. Enquanto as memórias recentes se esvaíam com facilidade, as do passado permaneciam vívidas e detalhadas.

Vou guardar do querido mestre seus ensinamentos, sua simplicidade, disposição e generosidade e a memória dos alegres encontros semanais.

Agradeço o privilégio de ter conhecido e convivido com o estimado professor.


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