São José do Rio Pardo, ,

12/Fev/2022 - 17:49:05

Semana trágica

Maria Olívia Garcia





Esta foi uma semana devastadora, em que se foram, para sempre, três pessoas que, de alguma forma, fizeram parte da minha vida. A primeira foi minha tia, Lucy Perri Pereira de Barros, a irmã mais nova de minha mãe. A segunda, minha ex-professora de Geografia, Maria Aparecida Siqueira. A terceira, a mais dolorosa perda: meu mestre, professor, companheiro das Semanas Euclidianas e do Conselho Euclidiano, que presidia: - meu grande e paternal amigo Márcio José Lauria.

Desde sempre eu o conheci, pois tinha amizade com meu pai.  Depois, em 1967, passou a ser meu professor de Língua Portuguesa no Curso Clássico da Escola Euclides da Cunha. Ele foi o grande responsável por minha opção para o curso de Letras.

Mas nosso relacionamento nem sempre foi pacífico: em 1968, quando ele assumiu a direção do Euclides da Cunha, nós, alunas do Curso Clássico, fizemos um protesto pela morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, no Rio de Janeiro, e colocamos uma tarja preta no bolso da blusa de uniforme, em sinal de luto. Fui suspensa pelo prof. Márcio porque me recusei a tirar a tarja da blusa.

Foi ele que me escolheu para participar da Maratona Intelectual da Semana Euclidiana de 1969 e também quem me deu a maior "bronca" e me tirou do Baile Branco naquele ano, porque eu iria fazer a prova da Maratona na manhã seguinte.

Ingressei na faculdade e continuei sendo aluna dele. Foram tantos anos que ele sempre brincava que eu era "cria" dele. Durante toda minha vida profissional, sempre que precisava de orientação, eu o procurava e ele sempre me atendia com toda gentileza. Foi ele também quem insistiu para que eu continuasse no Movimento Euclidiano e começasse a ministrar aulas para os maratonistas; quem me indicou para ser membro do júri que escolheria o melhor trabalho nos 100 Anos de Os Sertões; quem sempre apontava meu nome para eventos, congressos e atividades acadêmicas, assim como para participar do Conselho Euclidiano. Foi ele quem me pressionou para começar a publicar no jornal, o que só fiz após lhe dizer que temia a visão crítica com que ele leria meus textos.

Assim, tempos depois, quando começamos a trabalhar juntos, tornamo-nos amigos e ele sempre me apoiou. Não era fácil falar ao público na frente dele, a ex-aluna que habita em mim estremecia de receio das críticas mordazes que lhe eram costumeiras a quem cometesse impropriedades com a Língua Portuguesa! (Só quem foi aluno dele sabe exatamente do que estou falando!)

Para quem não o conhecia (certamente só os mais jovens e os não rio-pardenses), o professor Márcio foi uma das figuras mais ativas e importantes que São José do Rio Pardo já teve. Lecionou no "Euclides da Cunha" por 33 anos; foi professor-fundador da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Pardo, da qual foi diretor por três mandatos e onde se aposentou compulsoriamente, em 2002; lecionou depois na Universidade Paulista. Foi também professor da FEOB, de São João da Boa Vista; foi diretor da Casa de Cultura Euclides da Cunha e criador do Ciclo de Estudos Euclidianos e, graças aos esforços dele e de Joel Bicalho Tostes, os restos mortais de Euclides da Cunha e de Euclides da Cunha Filho foram trasladados para esta cidade. Foi vereador durante dez anos e presidiu a Câmara Municipal por dois anos. Presidiu ainda o Grêmio Euclides da Cunha, o Conselho Deliberativo do Centro Cultural Ítalo-Brasileiro, o Conselho Euclidiano e a Comissão Julgadora do "Prêmio Centenário de Os Sertões, em 2002, ano em que proferiu palestra na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Integrou diversas instituições culturais, como o Instituto Histórico e Geográfico, a Academia Cristã de Letras (SP) e a Associação Brasileira de Crítica Literária, do Rio de Janeiro.

O prof. Márcio recebeu os diplomas de Mérito Comunitário e de Guardião da Memória Rio-Pardense, além do título de Cidadão Emérito de São José do Rio Pardo. Participou ativamente da imprensa local, fazendo sua estreia há mais de 50 anos na Gazeta do Rio Pardo; foi o colaborador mais antigo do jornal Democrata e depois do jornal O Rio Pardo.

Publicou vários livros: Tempo & Memória, Ensaios Euclidianos, Nós, os nossos, alguns intrusos; Tratador de Palavras (o qual tive a honra de prefaciar); Vidro de Aumento e Tempo ao Tempo.

Guardarei na memória, obviamente, esse escritor e brilhante orador (o que muito admirava nele, pela memória e desembaraço ao discursar), o conhecedor de Euclides da Cunha, mas grande admirador de Machado de Assis, considerado por Lauria o maior escritor brasileiro; lembrar-me-ei sempre do professor da minha adolescência, da juventude e meu orientador em várias outras fases da minha vida, mas está registrado na memória também o colega de Semanas Euclidianas, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e da UNIP. Nunca me esquecerei daquele amigo que me apontava erros e acertos tanto em meus textos quanto em escolhas profissionais, nem do grande incentivador durante toda a minha carreira.

Mais ainda: eu me recordarei do pai sempre orgulhoso dos feitos de seus filhos e da inteligência dos netos. Lembro-me da alegria do professor ao comunicar a todos o nascimento da neta Alice, "Não é a coisa mais linda deste mundo?" - ele me disse, ao mostrar a foto da menina.

Ficam na lembrança ainda os "debates" no Centro Cultural do Baptista Folharini, nome dado por ele à hoje saudosa loja de jornais e revistas na Rua Dr. João Gabriel Ribeiro. Lauria mandou confeccionar uma placa para colocar no local, o que foi feito de forma pomposa. Infelizmente, ele era o último sobrevivente daquele grupo animado...

Tudo isto que escrevi eu deveria ter dito - e peço desculpas à família do professor Márcio por não haver falado - na ocasião do sepultamento dele, porém a comoção do momento não me permitiria chegar ao final da primeira frase, por isso preferi fazê-lo neste texto.

Descanse em paz, "Seu" Márcio (como todos o chamavam), pois a sua missão foi muito bem cumprida. Sinto que, devido ao Covid-19, não foi possível receber as honras merecidas, com um velório na Câmara Municipal - o que lhe era de direito - nem ser acompanhado por todos os seus admiradores que sempre foram muitos, como víamos nos lançamentos de seus livros. Professor, você estará sempre em nossa memória, em nossos corações e na história de São José do Rio Pardo!

 

? família, meus sinceros sentimentos e minhas orações para que tenham forças para superar essa triste perda!


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