São José do Rio Pardo, ,

19/Mar/2022 - 22:49:51

Celebrando o aniversário da Cidade

Redação

CÁRMEN CECÍLIA TROVATTO MASCHIETTO




??Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém as escuta, é preciso recomeçar sempre? (ANDR? GIDE, ??O tratado de Narciso?)                    

                                                                         

PLANTADORES DE ARQUIVOS   

Remexendo o passado, Amélia Trevisan e Rodolpho Del Guerra, historiadores, recuperaram nossa história e preservaram nossa memória. Trabalharam para que ??depósitos? fossem transformados em ??arquivos?. Despertaram a consciência da necessidade de um arquivo público, responsável pelo recolhimento e conservação de documentos, que, para muitos, não são mais que ??papéis velhos?. Em homenagem a eles, este artigo reforça a ideia de que? é preciso recomeçar  sempre?,  que ??repetir é preciso?:  ??papéis velhos?  têm um valor inestimável, eles  guardam a memória de um povo .

Pesquisando em arquivos, Dona Amélia demonstrou que ??as origens de nossa cidade remontam ao início do século XIX, quando por volta de 1815, o sesmeiro português, Capitão Alexandre Luís de Mello e seu clã, vindos de Minas Gerais, instalaram-se nas terras do vale do Rio Pardo entre os afluentes: rios Fartura e do Peixe?.  Numa entrevista publicada em 1917, Professor Rodolpho percebeu que, em 1868, já existiam casas, onde hoje é a praça XV, o que pode comprovar quando encontrou um ??papel velho?, que tratava de uma licença concedida, em 1868, ??para se benzer [...] o cemitério no bairro de São José do Rio Pardo, Distrito da Freguesia do Espírito Santo do Rio do Peixe? (RODOLPHO JOS? DEL GUERRA. ??Unindo meus dois livretes?. Edição do Autor, 2010). 

Na fazenda Tubaca, um arquivo particular preservou uma preciosidade: um livro de atas que foi reconhecido como ??a certidão de nascimento? da cidade de São José do Rio Pardo. A ata registra uma reunião de agricultores, que tomavam medidas objetivas para a construção de uma Capela e futura Freguesia em suas terras. Naquele dia, 4 de abril de 1865, decisões   importantíssimas visavam a autonomia futura do lugar, então subordinado à Vila e Câmara Municipal de Caconde.  Circunstâncias históricas nos permitem afirmar que se tratava de uma reunião de lideranças rurais, que se organizavam, preventivamente, antevendo a promissora expansão do café em suas terras.

 

LAVRADORES E EMPRESÁRIOS DO CAF?: PLANTADORES DA CIDADE

Os objetivos daquela reunião só foram alcançados após 20 anos, quando os cafezais já se alastravam pela região. A Freguesia foi concretizada em 1880, o status de Vila e Município, em 1885, e a posse da primeira Câmara de Vereadores eleita, em 1886. (DEL GUERRA, 2010). Nesse ano, a produção de café do município foi de 200.000 arrobas, contando com 4.255 habitantes, dois terços de toda produção e população da região de Casa Branca, que foi de 300.000 arrobas e 7.748 habitantes.  As áreas ao longo da estrada de ferro Mogiana já eram consideradas, naquele momento, as maiores produtoras de café de São Paulo e do mundo.  (S?RGIO MILLIET. Roteiro do café e Outros Ensaios. Huicitec, 1982). Em 1894-95, São Paulo produziu 4.107.486 sacas de café; em 1900-01, 8.933.500; em 1904-05, 9.088.957 sacas. Ao lado do café, produto de exportação, expandia-se, também, a agricultura produtora de alimentos e matérias-primas, além de diversas atividades industriais, vinculadas ou não à cafeicultura: algodão (têxteis e outros), cana (açúcar, aguardente, álcool), milho, arroz, feijão, fumo.  (ARQUIVO. BOLETIM HIST?RICO INFORMATIVO. Vol 5, nº 1. Edições Arquivo do Estado, 1984). 

A expansão da cafeicultura levou à abolição da escravidão, ao trabalho livre, precipitando o fim do Império e a implantação da República, no Brasil.  Os cafeicultores locais  tiveram atuação preponderante na transição para o novo governo. Em reconhecimento, a Vila foi elevada à Cidade, em 1891, honrada com o título de ??Cidade Livre do Rio Pardo?. Comandando a economia e a vida política do município, os enriquecidos empresários do café modernizaram a cidade, trouxeram a estrada de ferro, a eletricidade, multiplicaram negócios e oportunidades, alavancando o desenvolvimento urbano. Em 1890, São José contava com 9.207 habitantes; em 1900, com 17. 631; em 1912, com 44. 340, a maioria composta de trabalhadores emigrantes, atraídos pela riqueza do café. (ADRIANO CAMPANHOLE.  ??Memória da Cidade de Caconde?. Edição do Autor, 1979).

Seguindo um processo que foi regra na região das minas e difundido nas áreas rurais de São Paulo, gerações de descendentes dos desbravadores deste sertão do rio Pardo viveram como lavradores e criadores de gado, por cerca de 70 anos (1815- 1885). Suas existências transcorreram durante o período do Brasil Reino, marcado por estagnação econômica, num ambiente exclusivamente rural, isolados da civilização litorânea, buscando riqueza para sustentar famílias extensas, mulher, filhos, criados, escravos, agregados. Tropeiros, comerciantes de gado, intermediários de negócios, compradores do excedente produzido, vendedores de remédios e de outros produtos, completavam essa sociedade. Havia sempre uma figura destacada para representar e defender interesses coletivos, escolhida por dominar a escrita, as leis e contatos externos. Casamentos entre parentes, divisão da herança entre filhos e filhas, a instituição do dote, a possibilidade de vender e comprar terras, evitaram o esfarelamento das propriedades, favoreceram o empreendedorismo individual e a formação de novas unidades produtivas, pelos jovens maridos. Laços de amizade e solidariedade eram fortalecidos pelo costume do compadrio.  ? medida em que a riqueza e os negócios prosperavam surgiam as vilas, as câmaras municipais. O café acabou com a modorra dessa sociedade. (JORGE CALDEIRA.  História da Riqueza no Brasil.  Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017).

 

DE PORTUGAL AO SERT?O DO RIO PARDO: TRAJET?RIA DA FAMÍLIA DIAS

Eduardo Dias Roxo Nobre, genealogista, empresário, plantador de café, proprietário da fazenda Tubaca, resgatou a trajetória da família Dias, das mais antigas de Portugal, cujos descendentes povoaram o Sul de Minas e o Leste Paulista.  Sua pesquisa tomou como base o casal de agricultores, Capitão Vicente Alves de Araújo Dias (1826-1905) e Lucinda Cândida de Jesus (1834-1906), seus avós, ambos nascidos em Cabo Verde, MG, falecidos e sepultados em Sâo José do Rio Pardo. Sobre esse pioneiro e seus descendentes, Roxo Nobre assim se referiu: ??Lavradores, viviam do seu trabalho. Eram letrados, o que dava uma superioridade sobre os muitos conterrâneos chegados na mesma época. De tal sorte que o Imperador confiou ao Alferes José Luiz Dias (pai do Capitão Vicente) a execução do recenseamento da região. Quando vieram para o Brasil, buscavam a riqueza pela mineração do ouro. Chegados na região de Caldas- MG, onde o ouro era de aluvião, com a decadência do minério, tornaram-se novamente lavradores, mas aí com vasta extensão de terras? .

Descreveu o avô como pessoa desprendida, carinhosa, que aos 67 anos, fez a doação dos bens, em testamento, afirmando a um dos filhos: ??... não é preciso que vocês gastem conosco...o que temos, Deus seja louvado, creio que deve chegar por enquanto vivermos?. Esse patriarca, vindo de Minas, onde herdara dos pais terras em Cabo Verde, mudou-se para São José do Rio Pardo, em 1870, após adquirir a fazenda da Tubaca. Em municípios mineiros foi Capitão da Guarda Nacional e Delegado de Polícia. Foi Inspetor Literário do Distrito de São José do Rio Pardo, Vereador eleito e Presidente da primeira Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.

 Afirma que dos 11 filhos do casal, ??6 casaram-se com primos em 1º grau?, acrescentando:  ??Na geração seguinte, encontramos mais 16 casos de casamentos entre primos, em graus mais distantes?, e  justifica: ?? Os locais onde eles viviam eram pequenos, a maioria da população composta de escravos e braçais, desta forma a escolha para casamento ficava restrita?. Afirma que o casal Capitão Vicente e Lucinda Cândida deixou 3.000 descendentes, aproximadamente, tendo muitos se destacado como agricultores, sacerdotes, líderes políticos, fundadores de cidades, industriais, construtores de usinas hidroelétricas, pesquisadores, cientistas, entre outras atividades destacadas.

Os filhos e genros do Capitão Vicente foram os maiores produtores de café do município, nas décadas finais do século XIX. Constituíram firmas para comercializar suas safras: Dias, Irmãos, Oliveiros & Cia. (1891 a 1896); Dias Irmãos & Cia. (1895 a 1905). Em 1896, seis membros da família Dias fizeram parte de uma sociedade formada por 18 cidadãos ??abastados e arrojados?, que se cotizaram para a construção de uma Usina Hidrelétrica, empreendimento que -  ao final comprado por Vicente Dias Júnior, o mais jovem dos cotistas -  foi transformado na Cia. Paulista de Energia Elétrica, fornecedora de luz e energia, por mais de 100 anos, em uma vasta região. (EDUARDO DIAS ROXO NOBRE. ??Capitão Vicente e Seus Descendentes?. Edição do Autor, 2001).

 

GUARDI?ES E INT?RPRETES DO NOSSO PASSADO

 Farejadora do nosso passado, bem munida tecnologias da informação, Professora Maria Olívia Garcia, recolheu no Almanaque Garnier, de 1918, relação de centenas de moradores antigos de São José do Rio Pardo e suas profissões, onde são  abundantes os  nomes de famílias de emigrantes,  maior parte  da população. A competente cronista quase repete o bordão ??é preciso relembrar sempre?, na sua conclusão: ??Fica, assim, registrada parte da história desta cidade e de familiares de alguns leitores cujas histórias sempre valem ser relembradas, pois foram todos pioneiros que ajudaram a construir esta cidade!? ( MARIA OLÍVIA GARCIA. ??Ponto de Reflexão?. Jornal Democrata. São José do Rio Pardo, 3 de agosto de 2013).

Professor Márcio José Lauria, guardião e intérprete do nosso passado, autor de milhares de artigos, onde o tempo, a memória e a cidade constituem a matéria fundamental do seu trabalho, aconselhou em um deles: ??...estão aí os rio-pardenses presentes e ausentes que têm bons olhos, bons ouvidos, bom gosto para apreciar nossas belezas e virtudes, naturais ou elaboradas, e que trabalham sinceramente em favor da terra que amam. Seria ótimo colocar tudo em forma de dicionário amoroso, composto a muitas mãos.? (MÁRCIO JOS? LAURIA. ??Dicionário Amoroso?. Jornal Democrata. São José do Rio Pardo, 3 de agosto de 2013).

 

A ideia está sendo agora relançada.


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