São José do Rio Pardo, ,

19/Mar/2022 - 23:20:00

Maravilhas conservadas?

Maria Olívia Garcia




Impossível falar em aniversário de São José do Rio Pardo sem lembrar o nome do professor Rodolpho Del Guerra, que tanto trabalhou no resgate e conservação da memória desta população e desta cidade. Como nesta semana meu neto chegou com uma tarefa da escola pedindo imagens das sete maravilhas de São José e até eu fiquei em dúvida sobre as duas últimas, decidi lembrá-las aqui, juntamente com um texto do professor Rodolpho.

Para reativar a memória de quem porventura já tenha se esquecido dos locais escolhidos pela população, relembro que o primeiro colocado foi o Cristo Redentor; em segundo lugar vem a Igreja Matriz de São José; em terceiro, a ponte metálica (que para mim deveria estar em primeiro, pelo trabalho da reconstrução); em quarto, as estátuas das quatro estações, da Praça XV de Novembro; em quinto, a Ilha de São Pedro; em sexto, o Santuário de São Roque e, em sétimo lugar, a Gruta Nossa Senhora de Lourdes.

Em maio de 2011, o professor Rodolpho publicou um texto intitulado ??O Cristo Redentor e a saga de Manoel Rosa?, contando a história desse monumento que foi o mais votado.

Rosa foi o idealizador da imagem do Cristo Redentor, conforme Del Guerra, que ficaria no alto do ??Morro Santo Antônio?. O trabalho foi iniciado quando Rosa estava com 70 anos, preparando o pico do morro, o que fez por seis anos. ??Era solteiro,  solitário trabalhador, canteiro e pedreiro?.

Talvez fosse promessa feita, considera Del Guerra. Rosa foi, no início, quem financiou a construção, mesmo com inúmeras dificuldades, como a falta de água, e foi ele o doador da imagem. E Rosa não era rio-pardense de nascimento ?? veio de Leiria, Portugal, e aqui faleceu em 10 de julho de 1959, aos 86 anos de idade.

No pedestal da imagem há uma placa com os dizeres ??Ao senhor Manuel Rosa, iniciador e doador desta imagem, gratidão do povo católico de São José do Rio Pardo? atesta a gratidão dos cidadãos de São José.

? preciso recordar também que houve doadores dos terrenos que ficavam no alto do morro, como os herdeiros do Dr. Leão Ribeiro de Oliveira, Rafael Moreno, Geraldo Maurício de Souza, e Francisco Rueda. Aristides Junqueira e Paschoal Merlo instituíram a estrada de acesso ao monumento.

De início, pensaram em construir 14 capelas da Via Sacra até o Cristo, ideia que depois não se concretizou. Após o início do pedestal, 30 pessoas se reuniram, em março de 1944, escolhendo uma comissão de cinco membros indicados pelo vigário da paróquia, Adauto Vitali, para a construção da imagem:  Gabriel Braghetta, Otávio Pereira Leite, Valêncio Bulcão, Agripino Ribeiro da Silva e Manuel de Souza Rosa.  Este se prontificou a auxiliar o idealizador e angariar fundos para o monumento.

??Em 3 de maio de 1944, dia da Santa Cruz, autoridades, irmandades, estudantes, Tiro de Guerra, a banda União Rio-pardense e o povo, em procissão, chegaram ao pico do morro, assistindo à missa campal, com coral de Sílvio Rondinelli e sob uma chuva de flores atiradas pelo avião pilotado por Juvenal Paixão? ?? conta o professor Rodolpho.

Foi aberta, então, no mês de julho, uma concorrência para a aquisição da obra de arte, sendo que Otaviano Papaiz, artista campineiro, foi o vencedor, tendo enviado uma maquete que ficou exposta na Casa Braghetta. A imagem chegou pela Mogiana, em 1945, com 12,40 metros de altura que, somados ao pedestal, deveriam atingir os 17 metros, correspondentes ao número de letras do nome desta cidade.

A montagem ficou a cargo de Luiz Chiari e, em 7 de dezembro de 1947, os moradores da cidade puderam admirar o Cristo iluminado, como a flutuar no céu.

A população muito colaborou para que o projeto se concretizasse,  assinando listas que corriam pelas ruas. Conforme Del Guerra, os maiores doadores foram: ??Manoel Rosa (só a estátua, 37 mil cruzeiros); o Governo do Estado (20.000 cruzeiros); a Prefeitura (10.000 cruzeiros); Dr. José Ramos Barretto (um transformador e 5.000 cruzeiros) e Gabriel Arcanjo Junqueira (3.000 cruzeiros)?.

No dia de Cristo Rei, em 3 de novembro de 1946, ao som da Lyra Rio-pardense foi celebrada missa campal, em cuja homilia o padre Adauto Vitali disse:  ??(...) o Cristo Redentor, com seus braços abertos, abençoará os rio-pardenses e todos os que para aqui vêm com ele conviver?.

A inauguração oficial, porém, aconteceu em 19 de novembro de 1949, conforme Del Guerra, como parte da programação do 3º Congresso Mariano da Diocese de Ribeirão Preto, com missa campal oficiada pelo bispo de Ribeirão Preto, D. Manuel da Silveira d´Elboux, que na ocasião abençoou a imagem.

Uma placa foi então descerrada,  com os nomes dos membros da comissão que dirigiu esse processo de construção do monumento:  ??Cardeal D. Carlos Carmelo Motta, Bispo D. Manuel d??Elboux, Cônego Adauto Vitali, Gabriel Braghetta, Valêncio Bulcão, Octávio Pereira Leite, Agripino Ribeiro da Silva e Manuel de Souza Rosa?. Graças ao professor Rodolpho, a história aí está, para que todos a conheçam.

Como faz algum tempo que não volto a esses locais, neste aniversário da cidade gostaria de saber: qualquer pessoa ?? homem, mulher ou criança ?? pode visitar o Cristo Redentor sozinho, com segurança? Esses monumentos estão sendo bem cuidados e conservados, particularmente o Recanto Euclidiano? As estátuas de mármore da Praça XV ainda estão sujas e pichadas? Por que se permite que skatistas destruam a rampa e a escadaria da Matriz de São José? Por que a Ilha São Pedro, que seria tão bem aproveitada em qualquer outra cidade, não é explorada para o turismo?

Que o professor Rodolpho, de onde estiver, possa, de alguma maneira, ser o protetor dessas sete maravilhas da cidade!

Feliz aniversário, São José do Rio Pardo! Que os responsáveis por sua administração olhem para o futuro sem perder o elo com o passado!


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