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19/Mar/2022 - 23:29:48
Alguns elementos essenciais para a educação
RedaçãoPROF. DR. ALEXANDRE HENRIQUE DE MARTINI
Muitas pessoas, ao longo de suas vidas, podem ter se perguntado alguma vez: Seria o Professor insubstituível? Será que os computadores ou outra tecnologia podem substituir a escola na missão de ensinar?
Neste texto não temos a pretensão de dar uma resposta definitiva para esta pergunta, apenas apresentaremos alguns indícios da importância de alguns elementos do ensino presencial para a formação de indivíduos.
A Pandemia da COVID-19 isolou (ou está isolando) toda sociedade por quase dois anos. Neste período, uma das áreas mais atingidas e, talvez a mais prejudicada, foi a da educação. Esse isolamento, apesar de necessário, retirou os estudantes da sala de aula física e aumentou a evasão escolar: segundo a Fundação Getúlio Vargas, em 2019, a taxa de crianças fora da escola era de 1,39%; em 2020, esse número saltou para 5,5%. Outro levantamento, feito pelo "Todos pela educação", contabiliza cerca de 244 mil estudantes com idade entre 6 e 14 anos fora da escola. Dentre os principais motivos para o abandono listados pela pesquisa estão a falta de equipamentos adequados, falta de conexão com a internet e falta de motivação.
Este último tópico me chamou muito a atenção. Por que a falta de motivação? Seriam as aulas remotas cansativas? Será que a forma de apresentar o conteúdo no modo remoto não atingiu a adaptação necessária? Será que os alunos não atingiram uma maturidade suficiente para esse tipo de ensino? Talvez todos esses questionamentos façam parte de uma resposta final: Faltou a escola.
Em uma de minhas aulas, no final do ano passado, em um momento de avaliação da disciplina e da forma com que esta foi conduzida, um aluno desabafou: "Professor, muitas vezes entre prestar atenção no que o docente está apresentando e em um mosquito andando pela parede do quarto, o mosquito é o vencedor?, não digo que o conteúdo é ultrapassado, ou que o método esteja em desacordo com a necessidade, mas quando falamos em uma aula, parece que falta alguma coisa: falta o colega do lado pra perguntar (sobre a aula ou sobre como foi o dia dele?), falta o ventilador barulhento para eu reclamar, falta o barulho no corredor, falta uma prova? é, falta uma prova de verdade, pra ficar nervoso, pra esquentar a cabeça? pra tentar colar do amigo que está na minha frente, sem que o professor perceba (é claro)? Falta o professor, de modo presencial? pra eu chamar, mesmo que não esteja com nenhuma dúvida, só pra ouvir suas histórias,? falta o tio da cantina, falta tanta coisa?".
Percebi algo óbvio: os alunos acabaram se afastando da escola pela falta que a própria escola faz em suas vidas. E quando digo ESCOLA, indico o conjunto: prédio + pessoas + interação + busca pelo conhecimento (em todos os sentidos). Aqui lembro de um diálogo que sempre tinha com meu filho quando ele perguntava: "Papai, amanhã não tem escola, né"? Eu o corrigia: "não meu filho, amanhã não tem aula, a escola sempre estará lá?". Estará? Na verdade, o prédio estará, mas o prédio precisa dos alunos, dos professores, dos servidores, das experiências: sem o conjunto não existe escola. Cada um destes fatores, separadamente, de maneira isolada, também não faz a escola.
Durante o período de isolamento pela Pandemia, tivemos, de fato, a "ausência" de uma escola plena. Qual o reflexo disso? De acordo com o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP), divulgado no último dia 02 de março, 96,6% dos alunos de ensino médio da rede estadual terminaram a escola com desempenho abaixo do adequado em matemática, indicando que um aluno de 3a série do ensino médio saiu com proficiência esperada de um aluno de 7o ano do ensino fundamental; alunos do 5o ano do ensino fundamental estão com nível de aprendizado adequado a alunos de 2o ano. O que faltou? A escola?! Ou melhor, a versão plena da escola!
Muito se enganam os que suspeitam que aqui culpo docentes ou a administração escolar por este quadro. De forma alguma! Como indiquei acima, escola é o conjunto! Educadores sofreram tanto quanto alunos neste afastamento, nesta fragmentação da escola: no período de isolamento 72% dos docentes da rede estadual (SP) de ensino precisaram buscar algum tipo de apoio psicológico, segundo pesquisa realizada pela revista "Nova Escola", com mais de 9.500 profissionais.
Depois de muito tempo, com o aumento da população vacinada, os prédios foram reabertos para o ensino presencial. A esperança e até a emoção preenchem os corações de todos os que amam a educação. A fala de uma professora na recepção dos alunos do IFSP, campus São João da Boa Vista, muito me marcou: "Esperamos por vocês (alunos), como se fossem os nossos primeiros. Gostaríamos de abraçar cada um, pegar no colo e dar o melhor de nós, pois a presença de cada um aqui é o maior valor que a escola poderia ter neste recomeço."
A fala da professora emocionou pois mostra que nem professores, nem alunos são os mesmos do momento imediatamente anterior à pandemia: não é o retorno ao modelo presencial e sim a reinvenção deste ensino, passando, necessariamente, pela retomada da escola plena, com todos os atores comprometidos e engajados com a esta missão.
Mesmo diante de tanta novidade, existem elementos, não tão inovadores assim, que dão pistas sobre uma possível resposta à nossa indagação inicial:
Nenhuma tecnologia educacional será completa e dará vida a uma escola plena sem "o calor humano", sem a "alegria" e sem o "amor".
Prof. Dr. Alexandre Henrique de Martini, coordenador do curso Técnico em informática integrado ao ensino Médio do IFSP campus São João da Boa Vista.