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26/Set/2020 - 20:11:27
O maior dos comunistas em São José
Marcos De Martini
No estudo da História é fundamental o uso das fontes
históricas, documentos que ajudam a reconstituir e interpretar o passado, aos
olhos do presente. Nessas fontes podemos ter de pinturas de cavernas aos
famosos quadros de renomados pintores. Podemos ter lascas de pedra dos homens
da pré-história às armas modernas, objetos, ferramentas, roupas e tantas outras
peças resultantes da criatividade humana. Os documentos (em pedra, pergaminho,
papiro, papel, os digitais) também são peças fundamentais na longa evolução da
humanidade. Em meio a tudo isso, as fotos têm um papel marcante neste processo
de interpretação da História. Desde sua invenção no final do XIX, passando pelo
século XX, chegando até à era digital, elas são muito especiais na reconstrução
e interpretação da realidade social. Quem já não "perdeu" algum tempo
manuseando fotos da família, recordando, rindo e chorando diante do que as
fotos nos mostram?
Mas todos esses documentos têm que ser olhados e estudados dentro do contexto em que foram produzidos. Quando se busca uma história desconectada da realidade em que foi produzida, você incorre em um anacronismo, quando se misturam épocas, valores, ideias e comportamentos sem levar em conta a época de sua produção e o momento em que vive o seu intérprete. Produz-se uma mentira histórica.
Uma obra referencial que trata desta questão é o livro "A manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação", de Mark Ferro. Por toda a História, governantes e outros interessados, fizeram da manipulação da informação um mecanismo para construir suas verdades e ocultar outras que não lhes eram favoráveis. Por mais confiável que fossem esses mecanismos, em algum momento eles foram desmascarados. A verdade sempre acaba por prevalecer diante das fraudes e manipulações.
Voltando ao século XX, grandes registros fotográficos foram produzidos durante guerras, revoluções, manifestações de rua, com reis, presidentes, jovens estudantes e o povo de maneira geral. O século XX está exposto nas fotos. Aqui em São José, a história também é a mesma. O Centro de Memória "Professor Rodolpho Del Guerra" guarda um dos maiores acervos fotográficos do interior paulista. Poucas cidades têm preservado tantas imagens sobre a sua história e sua cultura.
Hoje, avançando pelo século XXI, com tecnologias acessíveis, a manipulação pode estar a serviço de muitos interesses. Não só uma foto pode ser alterada em seu significado, mas também vídeos, áudios e tudo mais, jogando para o público falsos entendimentos, distorcidos de sua realidade, e formando um falso juízo. Muitos haters, disseminadores de ódio pelas redes sociais, têm promovido movimentos de cancelamentos, quando articulam seguidores no intuito de perseguir, desestruturar pessoas e/ou empresas. Celebridades do cinema, da TV e figuras do meio político podem passar por essas situações que causam muitos transtornos, muitas vezes irreparáveis às suas imagens públicas. Felizmente, a legislação brasileira vem evoluindo no sentido de buscar tais detratores, retirá-los do submundo da internet, levando-os ao entendimento da justiça.
Vou tomar como exemplo de como uma imagem, capturada no arquivo do tempo, pode ser usada em detrimento de um ou de outro, tudo dependendo das necessidades da ocasião. Semana Euclidiana de 1986, São José recebeu a visita de Luís Carlos Prestes, então com 88 anos. O "Cavaleiro da Esperança", como ficou conhecido, foi uma das figuras mais importantes da história do Brasil no século XX. Liderou a Coluna Prestes, um dos muitos movimentos militares da década de 1920, que lutava contra o poder das velhas oligarquias que governavam o Brasil durante a República Velha (1894-1930). Percorreu 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil acossado pelos governos da velha política do "café-com-leite". Com a vitória de Getúlio Vargas em 1930, Prestes não se aliou aos novos detentores do poder, disfarçados de revolucionários, e foi para a União Soviética. Em 1935, com Aliança Nacional Libertadora, participou de uma tentativa frustrada de derrubada de Vargas. Preso, viu sua esposa grávida, a alemã Olga Benário, ser deportada para a Alemanha nazista, onde morreu em um campo de concentração, depois de dar à luz a sua filha.
Com a redemocratização pós-Segunda Guerra, Prestes ganhou a liberdade, mantendo-se fiel aos seus ideais e, mesmo na clandestinidade, apoiou os governos de JK e Jango. Com a derrubada do presidente João Goulart e a chegada da ditadura militar, Prestes foi para o exílio na União Soviética, só retornando após a abertura política iniciada pelo presidente Geisel. Aos 98 anos faleceu, deixando uma vida política expressiva na história do Brasil.
Voltando ao ano de 1986, sua presença na Semana Euclidiana, falando por quatro horas no salão do Centro Cultural, sob o feixe de varas do fascismo, atraiu um público que queria conhecer aquele senhorzinho franzino, já marcado pelas escoriações da vida política, defender seus velhos, mas não ultrapassados, ideais de um mundo mais justo socialmente.
Ao final da palestra, este que vos escreve, juntou-se ao grupo para a foto histórica em nossa cidade. Para que fique registrado, da esquerda para a direita: Rodolpho Del Guerra, Manuel de Paiva, Marcos De Martini, Maria Antônia Celeste e sua sobrinha Gabriela, Francisco Braghetta, Luís Carlos Prestes, José Luiz Spessoto e Sílvio Torres. Eram outros tempos e, respeitosamente, ouviu-se um relato histórico que empolgava pela sua convicção, mesmo sem a força da voz revolucionária de outrora.
Saltando para épocas mais recentes, quando deveríamos ter evoluído na direção da tolerância respeitosa ao diferente, fica a pergunta: como a sociedade rio-pardense, que tem fama de conservadora, reagiria à presença de Luís Carlos Prestes em um evento cultural? Saberíamos separar convicções particulares de posições políticas divergentes?
Nossa presença, ao lado de Luís Carlos Prestes, o mais icônico líder do Partido Comunista do Brasil, tornava-nos comunistas também? Todos nós, ali ao seu lado, almejando um registro histórico, éramos signatários de todos os seus ideais? Sim, não!!!
Mesmo entre os diferentes, a busca de uma sociedade mais justa, que tire o Brasil deste abismo da desigualdade social conhecida mundo afora, meta há muito defendida pelo cristianismo, deveria estar acima de distinções partidárias. Isso me faz sempre lembrar das sábias palavras de Dom Hélder Câmara, arcebispo emérito de Recife e Olinda: "Quando dou comida aos pobres, chamam-me de santo; quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista".
Para tanto, mais do que nunca, a busca por pontes sempre deverá prevalecer diante daqueles que querem levantar mais muros de exclusão social. Fecho com a frase da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz: "Enxergar é biológico. Ver é opção cultural".