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31/Out/2020 - 21:18:44
De olho no voto 2020
Marcos De Martini
"Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada".
(Otto von Bismarck)
Há poucos dias iniciou-se o processo eleitoral em todos os municípios brasileiros para a escolha de prefeitos/vices e vereadores. Consultando dados no TSE, serão pouco mais de 19 mil candidatos a prefeito e cerca de 510 mil para vereadores. Desse total, as mulheres representam apenas 13% das candidaturas a prefeito, índice parecido com os de 2012 e 2016. Para a vereança, serão cerca de 175 mil candidatas, 34% do total, pouca coisa superior às duas últimas eleições municipais. Vale lembrar que, segundo o IBGE, as mulheres representam mais da metade da população brasileira.Voltando um pouco na história, nas últimas décadas, desde a redemocratização do país pós regime militar, o Brasil tem passado por eleições praticamente a cada dois anos, para todas as esferas do Poder Executivo e do Legislativo. Para muitos analistas, as eleições municipais devem ter uma importância até maior do que as de esferas superiores. Advogam que é com esse ambiente que o cidadão mais se identifica, pois é o local em que vive, onde paga seus impostos (visualiza ou não seu retorno), presencia o trabalho ou a omissão dos agentes políticos eleitos.
Pela proximidade entre eleitos e eleitores, as votações municipais produzem situações muito interessantes, quando não hilárias, que já fazem parte do folclore político. Em tempos um tanto distantes, nossa pequena vila presenciou disputas heroicas entre candidatos que já passaram para as páginas da história e da memória rio-pardense. Um olhar em jornais dessa época nada midiática registram propagandas, acusações e retóricas bem ao estilo das antigas lideranças.
Também era comum entre os participantes das mesas apuradoras (contagem das cédulas que podiam seguir por dias) a identificação dos famosos desabafos (elogios) aos concorrentes. Era a chance do descontente eleitor mandar seu recado aos candidatos. Por vezes, quando ainda votávamos em cédulas, o eleitor descontente escolhia um personagem do cotidiano para receber seu voto de "protesto", ficando famosos alguns animais que receberam milhares de votos em eleições de grandes centros.
Na cidade de São Paulo, em 1959, diante de um clima de insatisfação política na capital, o jornalista Itaboraí Martins do jornal "O Estado de São Paulo" lançou a candidatura do rinoceronte Cacareco, que conquistou quase 100 mil votos nas eleições. Um eleitor teria desabafado: "? melhor eleger um rinoceronte do que um asno." Outro momento de "protesto animal" aconteceu em 1988, no Rio de Janeiro, quando foi lançada a candidatura do chimpanzé Tião à Prefeitura da cidade. Promoveram uma grande festa para libertar "o último preso político". Estima-se que o Macaco Tião tenha recebido naquele pleito mais de 400 mil dos votos dos eleitores. O advento da urna eletrônica colocou fim a esse tipo de manifestação e a cédula de papel foi trocada pela facilidade das teclas coloridas, apenas com as possibilidades de protesto entre o Branco e o Nulo.
Eleitores de longa idade sentem saudade dos famosos showmícios, quando artistas de diferentes cachês, levavam grande público aos atos políticos, em grande parte os únicos na vida de muitos eleitores. Também não podiam faltar os brindes, fartamente distribuídos para gravar nome e número dos pretendentes. Muitos carregavam orgulhosos uma camiseta, um boné, uma régua ou um chaveiro de candidato, de um passado não muito distante. Com a evolução da legislação, a Justiça Eleitoral foi restringindo determinadas práticas, tornando as eleições mais limpas e justas, deixando-as até um "pouco chatas".
Já a construção do slogan e o símbolo da campanha, que iriam acompanhar o candidato até a esperada vitória, era algo muito bem pensado, mas sem os rigores impostos pelos atuais produtores marqueteiros. A famosa vassourinha, usada na campanha de Jânio Quadros em 1960 (iria varrer a corrupção do Brasil), fez muito sucesso entre outras esquisitices desse presidente. Houve outra passagem envolvendo Jânio Quadros (ex-presidente) e Fernando Henrique Cardoso, na disputa pela sucessão de Mário Covas à Prefeitura da capital paulista. Prenunciando a vitória, FHC deixou-se fotografar sentado na cadeira do prefeito, dias antes das eleições. Apurados os votos, Jânio venceu FHC e no dia da posse - 2 de janeiro de 1986, passou desinfetante na cadeira do prefeito, explicando a razão da assepsia: "... estou desinfetando esta poltrona porque nádegas indevidas a usaram."
Percorridas algumas páginas da história política e da memória eleitoral brasileira, esperamos que passagens grotescas, protestos sem fundamento, ações deliberadas no sentido de forçar o voto do eleitor, tenham espaço apenas nessas lembranças, não mais na realidade de nossa sociedade que busca e acredita que a política ainda é o caminho para as mudanças que esse país tanto almeja.
Para nós, da Cidade Livre do Rio Pardo, que os resultados das urnas e a vontade soberana do eleitorado, sejam respeitados e que nossa cidade possa avançar no caminho da transformação que todos nós almejamos, muito além dos slogans de campanha.