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07/Nov/2020 - 20:50:30
De Cícero a Raul ?? de Roma à Bahia
Marcos De Martini
Um sonho sonhado sozinho é um sonho. Um sonho sonhado junto é realidade. (Raul Seixas)
O tema política inspira polêmicas, comentários dos mais variados, discussões acaloradas, defesas ardentes e críticas dilacerantes e tantas outras possibilidades. Para alguns, é paixão; outros dizem que é perda de tempo.
Nos últimos anos, principalmente em épocas próximas de eleições, os brasileiros têm se envolvido em assuntos políticos, muitos chegando ao extremo de colocar em risco antigas amizades, fruto de discordância de posicionamento. Nada mais inoportuno nestes tempos de redes sociais, com confrontos que beiram o ódio e as políticas de cancelamento.
Diante deste momento, as vésperas de mais uma grande eleição, em que mais de 170 milhões de brasileiros escolherão pelo voto direto prefeito/vice e vereadores, proponho fazer uma leitura comparativa entre a grandeza do estadista, orador e filósofo romano, Marco Túlio Cícero (106 a.C - 43 a.C.) e o baiano "maluco beleza", cantor e compositor brasileiro aclamado como um dos pais do rock brasileiro, Raul Seixas (1945 - 1989).
O conhecido texto de Cícero serve para uma reflexão sobre o uso da política em mais de dois mil anos de história, vinda da República Romana, berço de muito do que temos hoje.
"Para ganhar o favor popular, o candidato deve conhecer os eleitores por seu nome, elogiá-los e bajulá-los, ser generoso, fazer propaganda e levantar-lhes a esperança de um emprego no governo [...]Quanto à sua imagem, espalhe que você fala bem, que os coletores de impostos e a classe média gostam de você, que os nobres o estimam, que os jovens se amontoam à sua volta, assim como os clientes que você já defendeu, e que veio gente do campo e de cidades do interior, até Roma, explicitamente para apoiar a sua campanha. Faça com que os eleitores falem e pensem que você os conhece bem [...] que você é generoso e aberto, que, mesmo antes do amanhecer, sua casa está cheia de amigos [...] que você fez promessas para todo mundo e que as cumpriu, realmente, para maior parte das pessoas."
Não fossem as poucas passagens contidas no documento que nos levam ao mundo da Roma Antiga, no período anterior ao nascimento de Jesus Cristo, o texto seria facilmente entendido como uma análise da atualidade brasileira, tal sua espantosa identidade.
Na outra ponta da comparação, para alegria de uma legião de fãs, a letra da música "Cowboy Fora Da Lei", composição de Raul Seixas e Cláudio Roberto, lançada em 1987. Bem ao estilo de Raul Seixas, a música traz uma visão bem humorada do que seria a política e as eleições.
"Mamãe, não quero ser prefeito
Pode ser que eu seja eleito
E alguém pode querer me assassinar
Eu não preciso ler jornais
Mentir sozinho eu sou capaz
Não quero ir de encontro ao azar
Papai não quero provar nada
Eu já servi à Pátria amada
E todo mundo cobra minha luz
Oh, coitado, foi tão cedo
Deus me livre, eu tenho medo
Morrer dependurado numa cruz
Eu não sou besta pra tirar onda de herói
Sou vacinado, eu sou cowboy
Cowboy fora da lei..."
Colocados os dois textos, identificados as épocas e o contexto de suas produções, ficam apenas as possíveis análises das informações neles contidas. Entre o renomado advogado e filósofo romano e o controvertido compositor que preferia ser uma "metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo", ficam as nossas opiniões dos tempos de hoje.
Na próxima semana, milhões de brasileiros irão às urnas para o conceituado exercício da cidadania e votar em seus candidatos, devendo saber que somente esta prática não é mais suficiente para as necessidades de uma sociedade do século XXI. A democracia passou exigir muito mais de nós, muito além do que o simples voto digitado na urna eletrônica. O acompanhamento das ações de nossos políticos eleitos passou a ser uma necessidade quase que obrigatória, como verdadeiros fiscais da administração pública.
O constante exercício da cidadania, para podermos cobrar as muitas promessas de campanha para aquele que for apontado pelas urnas, deve ser feito constantemente, no decorrer dos próximos quatro anos de governo, sob a pena de continuarmos na injustificável posição de atribuir tão somente aos políticos todas as mazelas sociais que, infelizmente, estamos acostumados a presenciar e conviver de forma conivente durante os mandatos.
Que venha a mudança que esperamos pelo resultado das urnas, mas com uma cidadania bem mais ativa.