São José do Rio Pardo, ,

14/Nov/2020 - 21:04:38

História não é conta de somar

Marcos De Martini




Historicamente, o brasileiro não tem muita afeição pela política, apesar da obrigatoriedade do voto. Talvez, até mesmo por este motivo, reforçado por escolhas que já o desapontaram, a política partidária não tem sido vista com bons olhos, o que origina uma preocupação ainda maior.

Foram muitos casos vividos pela política, da esfera municipal à federal, registrados pela História e com diferentes interpretações de valores e sentidos. A História não tem o dom da verdade, ela expõe os fatos, as fontes e permite as interpretações ao olhar de seu leitor, o que despertará pontos de convergência e outros de divergência. Essa é a matriz da História, como nas palavras da historiadora Lilia Schwarcz: "História não é conta de somar, nada tem de evolucionária, de aglutinar de modo crescente, progressivo e previsível".

Olhando para nossa breve história, que há pouco ultrapassou seus cinco séculos e como nação independente ainda abaixo dos duzentos anos, fica difícil comparar com outros povos que já percorreram uma jornada muito maior, em que a luta pela construção da cidadania e conquistas dos direitos já teve que enfrentar as verdadeiras revoluções, guerras horrendas e regimes dos mais autoritários. Para muitos setores da sociedade, esse retardamento democrático favorece à medida que mantém as valas da desigualdade praticamente intransponíveis no que concerne ao acesso aos direitos básicos da população, o que só reforça uma sociedade dividida entre privilegiados e excluídos.

Este Brasil, que avança claudicante pelo século XXI, ainda está agarrado a costumes e direitos herdados de um passado distante, que não mais coadunam com os novos tempos. Temos uma herança política-eleitoral que ainda alimenta a corrupção de eleitos e eleitores; uma vivência social enraizada que ainda apresenta matizes da escravidão, oficialmente abatida pela força da lei em 1888, mas que ainda é revivida em situações sutis de preconceito estrutural, discriminação e intolerância. Essas situações corriqueiras, despercebidas ao olhar da maioria, desaguam na constatação de uma sociedade de privilégios, de favorecimentos, de pessoas que pensam estar acima da lei, em outra esfera social, longe da famosa gentalha.

Depois do trauma político vivido pelo país durante o regime militar (1964 - 1985), temos buscado reencontrar o caminho da cidadania, não como meros espectadores como disse de maneira profética Aristides Lobo, em 1889, frente à proclamação da república liderada pelo marechal Deodoro da Fonseca - "O povo assistiu tudo aquilo bestializado"- sem entender, sem participar.

Ao abrir os trabalhos da Assembleia Constituinte de 1987, o artífice da redemocratização Ulysses Guimarães clamou com sua voz peculiar: "A nação quer mudar, a nação deve mudar, a nação vai mudar". Caminhando para seus trinta e poucos anos, a Constituição de 1988 procurou garantir no papel muitos direitos sociais, políticos e civis, sabedores que eram parte de seus constituintes, da história e do embate com as forças que preferem uma sociedade desamparada pelas leis, ao livre arbítrio dos eternos mandantes.

Nesses últimos anos, elegemos um salvador da pátria, um acadêmico, também um operário, uma ativista política e Jair Bolsonaro, mostrando o quanto é trabalhoso a construção de uma nação e a afirmação dos direitos básicos para a vida em sociedade. Cada um desses personagens elencou, ao seu critério, mais que uma bandeira, um pendão de anseios aos olhos dos brasileiros que os elegeram ou dos que lhes fizeram oposição.

O Brasil de 2020, de maneira turbulenta, busca defender e reforçar conquistas, ampliar o leque de debates e de participação da sociedade nos caminhos da nação. Reforçamos a opção pela via da democracia representativa, aquela que através do nosso voto, da nossa escolha, permite eleger representantes que conduzam os rumos da sociedade em nosso nome.

Por mais desconfortante que pareça, é assim que se vive na democracia. Não somos o patinho feio da história. Pudemos acompanhar nestes últimos dias como os estadunidenses têm enfrentado os desafios da democracia. Como um povo, chamado de berço da democracia moderna, por muitos um exemplo a ser seguido, também tem vivido desafios que só a democracia permite. Como líderes, eleitos democraticamente, podem caminhar no rumo perigoso da autocracia.

 A democracia não aceita uma vida na zona do conforto, ela exige vida ativa do cidadão na luta pela participação e defesa dos direitos. A democracia é um conceito que se movimenta, que permite ampliação, desenvolvimento e correção de possíveis desvios de rota.

? nesses momentos de turbulência que podemos escolher novos caminhos para enfrentar o futuro, incerto, como sempre foi, mas um futuro que sempre inspira melhores momentos. A rua, mostra cada vez mais, que a democracia precisa de espaços mais abertos e amplos, fora dos gabinetes e decisões a portas fechadas. A democracia está respirando novos ares, e isto é muito bom, pois garante seu rejuvenescimento, tão necessário.

Você está pronto para esta participação? Já fez suas escolhas?


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